"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Meu Diário
27/03/2017 21h48
"POR ONDE ANDARÁ APOLINÁRIO?"

Mistério
Por onde andará Apolinário?
Quase um século depois da inauguração do busto de Apolinário Porto Alegre, a obra, roubada da Praça Argentina, segue desaparecida


Por Ricardo Chaves


     Hoje completam-se 90 anos da inauguração do busto de Apolinário Porto Alegre. De autoria de Alfred Adloff, a obra foi apontada por José Francisco Alves, em Escultura Pública de Porto Alegre, como um dos bustos mais belos do país. Em reportagem (ZH, 21/9/2014), o jornalista Itamar Melo apontou-a como uma das relíquias de Porto Alegre que não existem mais. O motivo: a obra instalada na Praça Argentina foi roubada em 2003. Landro Oviedo, em crônica do mesmo ano, perguntava: "Por onde andará Apolinário?". O cronista lembra que vários monumentos foram roubados da cidade, "entre eles, o busto do escritor, pesquisador, professor, historiador e ativista cultural Apolinário Porto Alegre (1844-1904), um dos fundadores do Partenon Literário (1868-1888), marco sistemático inovador das letras rio-grandenses do século 19".

     A cidade merecia ter um monumento a Apolinário, e os órgãos públicos, em especial a Secretaria Municipal de Cultura, deveriam gerir esforços para reconstruí-lo. Afinal, diz Oviedo, além de ser um escritor que leva a cidade no nome, Apolinário reuniu a escassa intelectualidade da época, responsável pela abertura de escolas noturnas, bibliotecas e museus. Foi abolicionista, defendeu a República e incentivou a autonomia da mulher, sendo vanguardista na difusão dos ideais republicanos. Viveu seus últimos anos na Casa Branca, no Morro Santana, famosa por ter sido quartel-general e hospital dos farrapos.

     O professor Arnoldo Doberstein, em seu Estatuários, Catolicismo e Gauchismo, assinala que o escultor Adloff era introspectivo, solitário e desajustado em sua arte. Nas cartas a que Doberstein teve acesso, encontrou registros que lhe sugeriram que o escultor "estava muito à vontade para interpretar a romântica, reflexiva e amargurada personalidade do insigne literato. (...) Na face enegrecida do educador cavou dois profundos vincos transversais, dando-lhe, assim, uma expressão de cansaço e abatimento. No sobrolho alinhou diversas enrugaduras, como indicativo de dúvida e da preocupação.

     O indefectível signo dos letrados não podia faltar. Com sua técnica apurada, valorizou sobremaneira o detalhe do livro que o homenageado segura na mão esquerda. O dedo indicador marca a página onde a leitura foi interrompida".

     Em uma nota, o autor revela que a pose de Apolinário pode ter sido inspirada em uma foto do escultor aos 20 anos, pois os elementos são idênticos, como a mão no queixo, a expressão nostálgica e o livro com o dedo marcando a página. Segredos de artista.

     Inserido no contexto da ideologia nacionalista do período, a memória de Apolinário Porto Alegre faz parte da cidade. No momento em que se encerra a Semana de Porto Alegre, com seus 497 eventos realizados, produzimos mais memória ou amnésia na história da cidade? Com tantos eventos, é lamentável que não tenha havido tempo para pensar na escultura histórica da Capital. A comunidade aguarda um projeto que toque para a frente a ideia de Benedito Saldanha, presidente da Sociedade Partenon Literário, de reconstrução do monumento, cuja ausência ecoa como um silêncio perturbador sobre o autor de uma obra que influenciou a produção literária regionalista do Estado.

Colaboração de Jorge Barcellos, historiador e doutor em Educação

Nota de Landro Oviedo:

"Amigos e amigas, fui citado nesta segunda-feira, 27.3.2017, no jornal Zero Hora, na coluna Almanaque Gaúcho, sobre uma crônica que escrevi, cobrando providências das autoridades, em relação ao busto desaparecido de Apolinário Porto Alegre, um dos troncos basilares na formação da cultura do Rio Grande do Sul. Repasso para vocês e agradeço a leitura, bem como a citação do colunista Ricardo Chaves. O texto traz informações relevantes sobre essa questão do sumiço da estátua, invocando outros nomes afeitos ao tema. Também serve para relembrar, mais uma vez, que a cultura gaúcha, ao contrário do que pensam muitos desavisados, não começou com Os Fagundes, que são um apêndice desprovido de embasamento cultural.
Segue o linque da matéria: http://zip.net/bbtGQH "


Publicado por Landro Oviedo em 27/03/2017 às 21h48


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