"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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AMOR E ÓDIO EM BAGÉ

     Sob o signo da estrela Vésper, lá pelos idos dos anos 30, os progressistas de Bagé realizavam um ato contra o Integralismo e o Fascismo. O orador era um jovem e impetuoso comunista, o juiz de Direito Pedro Wayne, autor de "Xarqueada", um clássico da literatura de denúncia social, enfocando a vida nas charqueadas.
     De repente, no meio da assistência, irrompe o sargento Manuel Gamboa, desafeto confesso, opositor ferrenho às idéias do escritor. Sem pestanejar, saca de seu revólver e mira o peito de Wayne. Nesse momento, seu braço é desviado pela intervenção providencial do cabo que o acompanhava.      Gamboa é então imobilizado e conduzido preso ao quartel. Wayne é ovacionado e conduzido triunfalmente pelas ruas de Bagé. Dois personagens, duas circunstâncias e mais um abismo entre eles.
     Tempos depois, o destino moveria suas peças no tabuleiro da vida. Entre o futuro poeta e jornalista Ernesto Wayne e a jovem Vitória Gamboa nasceu uma imprevista paixão que os levou ao casamento, a uma união que apenas a morte de Ernesto cindiria. Pedro Wayne já não era mais deste mundo; Manuel Gamboa, ainda magoado, desaprovou a união e apartou-se da filha.
     Dizem os antigos que a fruta nunca cai longe do pé e que quem sai aos seus não degenera. Ernesto Wayne herdou o sobrenome, as idéias e a militância do pai. Em função disso, foi preso logo após o golpe de 1964, junto com seu irmão Ramón, lider sindical. Foram meses de angústia para sua família, com filhos pequenos, dependendo da solidariedade de alguns amigos, solidariedade que emergia cautelosa em meio ao anonimato, dado o estigma que se abateu sobre o clã dos Wayne.
     Em meio a essas circunstâncias adversas, Vitória toma a difícil decisão de pedir ajuda ao pai, agora em Porto Alegre, o poderoso general Manuel Gamboa. No reencontro, lágrimas, abraços, choro convulsivo. Por fim, Vitória diz a que veio, o pleito por Ernesto. E diz que os advogados estimavam para ele, preso havia cerca de três meses, uma pena de oito. Manuel espanta-se com a provável pena e consegue aumentá-la para dois anos e meio, pois "oito meses é muito pouco para esse comunista". Surge novo hiato entre pai e filha, o qual duraria até que Manuel, no arremate da vida, lhe pedisse perdão.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/03/2012
Alterado em 22/02/2018


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