"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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     LINGUAGEM NO PAÍS DOS GAÚCHOS

     A proposta do presidente uruguaio Jorge Batlle de unir o Rio Grande do Sul com o Uruguai provocou risos e foi considerada esdrúxula. Contudo, o discurso separatista foi aposentado há muito pouco tempo, após a década de 30, quando Getúlio Vargas ascendeu ao poder e fomentou um mercado centralizado, no qual nossa economia periférica cumpriu um papel de fornecedor. Foi uma "brasilidade" pós-fabricada, de inserção comercial.
     Isso em nada faz desdouro a uma identidade histórica entre o RS e o Uruguai. Tomemos a linguagem, índice do caldeamento cultural. Com base nela, o arguto escritor e pesquisador Manoelito de Ornellas, autor do clássico "Gaúchos e Beduínos", em artigo intitulado "Espanholismos e não argentinismos", divide o gaúcho em gaúcho cisplatino - o rio-grandense e o oriental - e gaúcho platino. Lembra que a fronteira seca com o Uruguai facilita o intercâmbio de palavras e que ele é intenso na faixa que vai de Quaraí às barras do Chuí. Esse vaivém é menor na fronteira "molhada" com a Argentina, na área de municípios como São Borja, Itaqui e Uruguaiana.

     Essa constatação do grande historiador tem raízes remotas na península ibérica. O feudo original dos que vieram a povoar o Uruguai se situava no norte espanhol e na Galícia portuguesa. Eram os berberes, inimigos mortais dos árabes desde as vastidões milenares dos desertos. Os árabes, por sua vez, não obstante a parecença física com os berberes, tinham língua, costumes, psicologia e tradições distintas. Àqueles coube legar sua linhagem aos que viriam se estabelecer às margens do Rio da Prata.

     Manoelito de Ornellas ilustra seu artigo com termos que ultrapassaram oceanos no convés dos navios dos nossos desbravadores, como "barbaridade", "aperos", "cambas", "cepo", etc., vindos do Norte ibérico para terras uruguaias, antes de serem repatriados. É por isso que perseguir o rastro de uma palavra no tempo é remeter a mundos que se abrem e se fecham nos seus enigmas. É o caso da origem da palavra "gaúcho", a desafiar os filólogos ao longo dos tempos e possivelmente para sempre.

     A declaração do presidente Batlle provocou comentários jocosos. Contudo, ela é uma manifestação de simpatia diante de um passado comum. Não nos esqueçamos de que foi um poeta oriental, o desventurado Bartolomé Hidalgo, que fundou a literatura gauchesca. Que regalo!



Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil
PORTO ALEGRE, SÁBADO, 7 DE SETEMBRO DE 2002.




 
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/03/2012
Alterado em 13/08/2019


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