"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos


     POR QUE LUPICÍNIO RODRIGUES ERA GREMISTA

     Nós, os gremistas, seguidamente somos cobrados pelo fato de torcermos pelo Grêmio, que, numa certa visão, com supedâneo no seu histórico como clube, é uma agremiação com histórico racista. O Internacional seria um clube associado às raízes do movimento operário, da qual a cor vermelha é um símbolo. No Rio Grande do Sul, o rebelde completo é aquele que é socialista, maragato e torcedor do Internacional.
     Esse "kit" é bom, pero no mucho. Socialista, vá la! Afinal, sempre é bom querer mudar o mundo. Claro que depende de qual tipo de socialismo, pois as espécies comprometem o gênero. Mas todos têm um manto vermelho.
Maragato? Vá lá! Entre o romantismo dos maragatos, na política e na vivência da pampa, e o progresso comtiano dos chimangos, necessário por certo, fico com aqueles. E eles têm um lenço vermelho.
     Todavia, toda a via de mão única merece reparos. Colorado? Precisa ser? Não dá para ser socialista, maragato e gremista? Lendo Lupicínio Rodrigues eu concluí que sim. E sem dores de consciência. E com ciência.
     O velho, bom, terno e eterno Lupi nos conta a história do seu gremismo numa crônica publicada no jornal Última Hora, de 6.4.1963. Plenamente imbuído de suas raízes, humildes, populares e negras, ele explica a aparente contradição de, na sua condição, ser gremista e mosqueteiro de um escrete de "sangue azul".
     O futuro nos une, o passado nos desune, já disse alguém. E se não disse, deveria ter dito. E Lupi nos traz uma histórinha nada edificante, digna de ser lida ao público reinante naqueles dias em que o portão 8 do Estádio Beira-Rio registra uma afluência incomum de queixas e lamentações.
     Tudo começou em 1907, quando uma turma de mulatos resolveu formar um time de futebol. Nesse grupo estavam Júlio Silveira, Francisco Rodrigues, pai de Lupi, Otacílio Conceição, José Gomes, Orlando Ferreira Silva, funcionário por anos a fio da Biblioteca Pública, amigo de Lupi também, um longevo transcontemporâneo. Ao time deram o nome de Rio-Grandense, ficando Júlio Silveira como presidente. Foram grandes e afanosos os trabalhos de formação da agremiação, com escolhas de cores, fardamentos, estatutos e tudo o mais. O sonho de todos era participar da Liga, que, naquele tempo, reunia o Fuss-Ball (o Grêmio de hoje, segundo Lupi; o primeiro adversário dos gremistas, segundo a revista Gol do centenário do Grêmio), o Ruy Barbosa, o Internacional e outros.
     Esse sonho foi acalentado por muitos anos, enquanto se tomavam as medidas necessárias para dar forma ao infante. Todavia, na ocasião em que o Rio-Grandense pediu inscrição na Liga, quem votou contra? Justamente o Internacional, o Clube do Povo. Resultou daí que o Rio-Grandense não foi aceito.
     Foi assim, pela mágoa e revolta com o Internacional, que o grupo que organizava o novo clube começou a torcer pelo seu maior rival, justamente o Grêmio. E, desde então, buscaram sempre desviar seus familiares e descendentes do moinho colorado.
     Como resposta ao ocorrido, os "barrados no baile" organizaram uma nova liga, a Liga da Canela Preta. A liga teve uma profícua existência, mas acabou abreviada sua existência por conta de um promissor desfecho. Desafiada pelo Ruy Barbosa, que precisava juntar uns cobres, venceu-os. Depois, enfrentaram o Grêmio. Foi aí que se descobriu o celeiro de craques da liga, os quais acabaram contratados pelos demais clubes, que tiveram de modificar seus estatutos para acolher as novas celebridades.
  O depoimento de Lupi é um belo desagravo aos gremistas, que, freqüentemente, são patrulhados pela sua opção de torcer pelo time da Azenha. Claro que não há nisso mocinhos e bandidos, pois os preconceitos eram comuns naquela época. Basta lembrar que, para o Código Civil de 1916, a mulher casada não era plenamente capaz para os atos da vida civil e o cabeça do casal era o marido. Mas é um alento ver que, desde cedo, o clube se alinhou com os interesses populares, não obstante as cabeças coroadas defensoras do racismo, que só foram vencidas por Tesourinha na década de 50.
     Fica o registro: um gênio como Lupicínio Rodrigues não escolheria o time do coração por acaso. Os acasos do coração ele transformou em música. As razões fundamentadas da sua opção pelo Grêmio ele transformou em hino.


("Porto Alegre em contos" / Prefeitura Municipal de Porto Alegre -Porto Alegre: Editora da Cidade, 2006)
(Jornal Nossa Época, Itaqui-RS, 26.8.2006)
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 07/03/2012
Alterado em 30/01/2018


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