"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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LITERATURA GAÚCHA - DAS ORIGENS AO PARTENON LITERÁRIO (1868) - BREVE CONTRIBUIÇÃO (PANORAMA HISTÓRICO)

Panorama histórico

 

Os jesuítas

Quando os destemidos jesuítas espanhóis, na longa marcha que empreenderam desde as Missões paraguaias, na fuga à pilhagem e à sanha escravista do bandeirante paulista em relação ao indígena, contemplaram pela primeira vez o então Rio Grande de São Pedro, talvez o tenham vislumbrado como a "Terra sem males", idealizada pelos índios guaranis. E assim, munidos pela confiança no futuro, lançaram-se a uma saudável luta contra a natureza hostil para construir as primeiras reduções destinadas ao aldeamento e à proteção do nativo. Entretanto, a vida haveria de demonstrar que os desígnios "superiores" da civilização só seriam realmente cumpridos se aqueles povos, chamados primitivos, incapaz de compreendê-los, fossem aniquilados física e moralmente.

Os ciclos econômicos

Desafortunadamente, coube a estes missionários espanhóis um papel involuntário no estabelecimento do primeiro ciclo da economia rio-grandense: o ciclo do índio. Entre 1636 e 1638, as invasões dos bandeirantes aqui vieram em busca de índios para mover as lavouras nordestinas e paulistas, semiparalisadas pelo estancamento temporário do tráfico negreiro. Desta forma, com vidas humanas, iniciava-se o Rio Grande no papel que lhe coube sempre exercer ao longo dos tempos, o de fornecedor de produtos, de força de trabalho e de guerreiros ao restante do país.

A segunda contribuição dos jesuítas transplantados foi o gado xucro, fruto do gado disperso das reduções, originando a "Vacaria del Mar". Quando eles decidem retornar ao Paraguai, por volta de 1640, este gado alçado passa a ser um elemento de subsistência com o comércio de couro. Portugueses, espanhóis, índios, amalgamados num tipo social marginal e rebelde, o "gaúcho", levam a efeito este ofício, cujo resultado era um produto que cruzava os mares rumo às terras da Europa. Constituía-se então o ciclo do couro, oficialmente o ciclo que inaugura nossa primitiva economia.

Surge Sacramento

No ano de 1680, os portugueses decidem fundar defronte à Buenos Aires, margem esquerda do Rio da Prata, a Colônia de Sacramento, um posto avançado de ousadia em pleno território espanhol, numa estratégia de uma desejada expansão dos limites do Brasil meridional. Via Colônia, desejavam participar dos lucros do contrabando da prata e do ouro vindos das minas peruanas de Potosi e enviados para a Europa. Tomada e retomada, a Colônia de Sacramento viria a ser um símbolo da instabilidade política e militar da região em disputa.

Os Sete Povos

Por volta desse mesmo ano, os jesuítas espanhóis começam a retornar ao Continente e, continuando a construir reduções, fundam os Sete Povos das Missões (São Nicolau, Sào Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Francisco de Borja, São Lourenço, São João Batista e Santo Ângelo). Estas reduções, organizando a vida cultural e produtiva dos indígenas, atingiram níveis extraordinários de desenvolvimento e escreveram, nos ermos destas paragens ainda inóspitas, um dos mais belos capítulos da história da humanidade. Com a organização social da produção e do consumo, com elementos de uma democracia incipiente, com a convicção de que o índio também era ungido pela condição humana, as missões jesuíticas foram um oásis de esperança diante da aridez e da cobiça sem limites dos conquistadores.

A economia das missões, coletivizada, girou basicamente em torno da criação pecuária, da agricultura e da erva-mate. Os índios aldeados retiravam apenas o suficiente para a subsistência própria, ficando o excedente para os indivíduos não produtivos, entre eles velhos e crianças, e para o comércio.

A análise do papel das Missões, ao longo dos tempos, tem sido uma pedra no caminho dos historiadores. Alguns vão desde a aberta simpatia até as mais severas restrições à obra dos inacianos. Entre aqueles, Manoelito de Ornellas. Entre estes, Moisés Vellinho. No meio, casos interessantes como o de Eurico Salis, que, num livro atraente pelo estilo, esposa ideias que não se coadunam com as citações escolhidas. Quem o ouve, sente suas admoestações aos jesuítas; quem lê os textos de autores por ele selecionados para corroborar suas teses não deixa de admirar a obra dos missionários espanhóis.

A fundação oficial

Em 1737, o Brigadeiro Silva Paes funda na atual cidade de Rio Grande a fortaleza Jesus-Maria-José. Este ano é considerado como o da fundação oficial do Rio Grande do Sul. Primeiro núcleo de povoação, fez-se com soldados, voluntários, recrutados, agricultores e mulheres da vida recolhidas nas ruas do Rio de Janeiro, o que bem serve para atestar que o surgimento do Rio Grande do Sul também está associado à profissão mais antiga do mundo. E que ninguém é suficientemente isento para xingar a mãe do outro.

Quando Silva Paes chega ao Rio Grande, seus pontos de ocupação são as Missões, pelos jesuítas espanhóis, e, mais adiante, sempre em litígio, a Colônia de Sacramento.

Os açorianos

Mas a fundação de um posto militar agora era menos do que pretendia a coroa portuguesa para estas terras. A partir de 1732 inicia-se o processo de concessão de sesmarias, origem das estâncias, na faixa próxima ao litoral. Por volta de 1740, começam a chegar os casais portugueses, oriundos do Arquipélago dos Açores e da Ilha da Madeira, estabelecendo-se na região que hoje é Viamão e Porto Alegre, dando origem a uma agricultura de subsistência. Instala-se, assim, uma dicotomia que haveria de arraigar-se na economia da província até o início deste século. De um lado, a economia pastoril e do outro, a agrícola, dois polos diferenciados. Um ocorrendo na região da Campanha e tendo como base social os estancieiros. O outro, na região Norte do Estado, valendo-se da mão de obra do imigrante açoriano, alemão e italiano.

Os tratados

As Missões, que até então tinham tido um relativo e inédito período de calmaria, voltam, no burburinho da cobiça de Portugal e Espanha, a ser alvo de ataques e de acordos. Durante um bom tempo, as únicas incursões ao interior do Continente foram feitas pelos tropeiros e peões na faina de prear o alçado gado vacum, cavalar e muar para remetê-lo à Capitania de Minas Gerais, via São Paulo, no ciclo econômico da mineração (1701-1750).

Em uma sucessão de tratados, selou-se a sorte dos Sete Povos. Em 1750, foi celebrado o Tratado de Madri, pelo qual a Colônia de Sacramento ficaria com a Espanha e as Missões com Portugal. Os índios resistiram a essas imposições e foram massacrados impiedosamente pelo exército demarcatório, integrado por forças militares das duas nações. No período conhecido como Guerra Guaranítica (1754-1756), pereceu o famoso cacique índígena Sepé Tiaraju, logo seguido, em sina e em destino, pelo seu sucessor, Nicolau Neguiru.

Em 1761, o Tratado de El-Pardo anulou o de Madri e as trocas foram desfeitas, agora sem o "perigo" representado pelos índios.

O Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, estabeleceu que a Espanha ficaria não só com a Colônia de Sacramento como também com o território das Missões, num evidente prejuízo para Portugal. Estas terras só seriam incorporadas ao mapa do Rio Grande do Sul pelas armas no início do século XIX, à margem de acordos e da diplomacia. Agora, sem o apoio dos jesuítas, as Missões declinaram a olhos vistos, até serem anexadas. O mesmo tratado criou os Campos Neutrais, faixa de terra entre lagoa Mangueira, lagoa Mirim e a costa marítima, uma divisa de limites entre as possessões de Portugal e Espanha, alvo de conquista dos portugueses para formação de estâncias e zona de recorridas do gaúcho "sem fé, sem rei nem lei" .

As invasões castelhanas

Datam deste período dos tratados as invasões castelhanas ao Rio Grande do Sul. Motivado por uma guerra na Europa, a "Guerra dos Sete Anos", na qual Portugal e Espanha estiveram em lados opostos, Dom Pedro de Cevallos, governador de Buenos Aires, toma Sacramento em 1761 e o forte de Rio Grande no ano seguinte. Sacramento volta para Portugal em 1763, mas a reconquista do restante do território ocupado só se daria em abril de 1776, pelas tropas do General Henrique Böhn. Dom Pedro de Cevallos tenta nova ofensiva em 1777, mas é detido por Rafael Pinto Bandeira.

Após o Tratado de Santo Ildefonso, uma tênue paz reina na Capitania, diante do relativo entendimento das duas coroas. Nesse contexto, organiza-se a indústria do charque, cujas técnicas foram introduzidas pelo cearense José Pinto Martins. O charque, produto de exportação, viria a desempenhar um papel essencial na formação da economia rio-grandense. Entretanto, diga-se de passagem, esta calma era apenas aparente. Os rio-grandenses apenas esperavam para dar o bote, no momento adequado, e, assim, recuperar o território das Missões, a esta altura, uma obsessão de aventureiros, militares e candidatos a estancieiros. 

As capitais

Durante a ocupação espanhola, a sede do governo é transferida de Rio Grande para Capela Grande de Viamão, em 1763, e, posteriormente, para o Porto dos Casais, em 1773. A capital nunca mais mudaria de lugar, ainda que seu nome viesse a evoluir para Porto Alegre.

A fronteira expandida

Retomado o território ocupado, destruídas as Missões, fixadas as estâncias, instaurada a agricultura com o braço do açoriano, que trouxera o trigo, restava dar contornos definitivos à futura Província do Rio Grande do Sul. Foi o que fizeram o soldado Borges do Canto e o estancieiro Manuel dos Santos Pedroso, que levaram o que restava das reduções jesuíticas à capitulação definitiva. Em 1801, viu-se delineado o atual mapa, uma conquista feita à pata de cavalo, heroísmos, sacrifícios, mortes anônimas, barbárie, empobrecimentos de muitos e riquezas de alguns.

As guerras do Prata

No dia 20 de maio de 1810, os argentinos conquistavam sua independência. O governador Elio, fiel à coroa espanhola, conseguiu apoio de D. João VI, com tropas e recursos, para fazer frente à luta pela emancipação da Argentina, que contagiou outras colônias espanholas, e da Banda Oriental, cuja luta foi comandada por José Artigas, de princípios federalistas e progressistas.

A vitória de Artigas estimulou uma expedição armada sob o comando do Gen. Lecor, enviada pelo governo imperial, para anexar a Banda Oriental, sob pretexto de invasào de fronteiras. Apesar de sucessivas derrotas, Artigas se mantém no firme propósito de defender sua jovem pátria.

Em 20 de janeiro de 1817, as forças brasileiras irromperam em Montevidéu. Artigas é derrotado e recolhe-se ao Paraguai. Sua reforma agrária, seu projeto de um país para os índios, para os gaúchos pobres e para os escravos libertos por ele sucumbiram na grande armação feita por Brasil, Inglaterra, Portugal e Espanha. Mas suas idéias não pereceriam de todo. O grande general, em seu exílio, ainda teria a imensa alegria de ver sua pátria libertada pelos "Trinta e Três Orientais" no ano de 1828, liderados por Lavalleja.

A Revolução Farroupilha

Após a abdicação de D. Pedro I, a crise que se seguiu colocou em campos distintos grupos regionais que aspiravam ao poder. Nesse momento, a hegemonia política e econômica encontra-se nas mãos dos cafeicultores paulistas que, com medidas discriminatórias, exercem-na para defender seus interesses. Assim, baixam alíquotas do charque platino e sobretaxam o sal importado para utilização no produto sulino, além de aumentar impostos sobre a propriedade da terra. A classe senhorial gaúcha, que perdera o gado e as invernadas da Cisplatina, não podia mais concorrer com as facilidades oferecidas aos charqueadores do Rio da Prata.

Os estancieiros e charqueadores gaúchos, liderados por Bento Gonçalves da Silva, Davi Canabarro, Antônio de Souza Neto e outros, rebelam-se contra esta situação e iniciam contra o Império uma revolta que duraria dez anos, conhecida como Revolução Farroupilha, inspirando-se, vagamente, nos ideais republicanos que semeavam novos horizontes no mundo todo. Contudo, as repúblicas aqui proclamadas nunca contemplaram sequer a abolição da escravatura ou o voto da população, prerrogativa apenas dos grandes proprietários.

No ano de 1845, derrotados militarmente pelo Duque de Caxias, os farrapos obtêm a "paz honrosa". No acordo, constavam a elevação da taxação sobre o charque platino, a escolha por parte dos estancieiros do Presidente da Província, o pagamento das dívidas de campanha pelo Império e a incorporação dos rebeldes, com as mesmas divisas, no exército brasileiro.

O caráter conservador da Revolução Farroupilha pode ser resumido a um exemplo: a batalha final, com a paz já acordada, foi levada a efeito apenas para propiciar a eliminação dos contingentes formados por escravos, os "lanceiros de Canabarro", colocados na linha de frente. Tudo porque essa massa, armada e adestrada, após a deposição das armas, poderia sonhar com reivindicações que os senhores daqui e de acolá não estavam nem um pouco dispostos a conceder.

Os alemães

A partir de 1824, o Império brasileiro busca uma base de apoio no RS como forma de se contrapor ao poder político dos estancieiros e charqueadores. Assim, chegam os imigrantes alemães, que recebem terras e uma política de apoio por parte da Corte. Os recém-chegados vão então dedicar-se à manufatura de produtos pecuários, à formação de uma indústria nascente, à agricultura e ao comércio. Estabelecem-se próximo a Porto Alegre, dando origem a São Leopoldo e a cidades vizinhas.

A luta contra Oribe e Rosas

A invasão do território uruguaio para contrabandear gado rumo às charqueadas rio-grandenses, as chamadas califórnias, geraram um conflito armado que colocou de um lado Oribe e Rosas, presidentes do Uruguai e da Argentina, e do outro o Império brasileiro e o caudilho Urquiza, de Entre Rios.

O conflito termina com a vitória de Urquiza e dos imperiais. Entretanto, pouco depois, o novo governante uruguaio Aguirre reage às imposições dos vitoriosos e busca proteção do presidente paraguaio Solano Lopez. Novamente estava dado um quadro de beligerância, que levou à chamada "Guerra do Paraguai".

A Guerra do Paraguai

No ano de 1865, estoura a Guerra do Paraguai, que se estenderia até 1870. Brasil, Argentina e Uruguai, formando a Tríplice Aliança, invadem o território paraguaio e arrasam com sua população, cometendo atrocidades inomináveis. Tudo por obra e interesse da Inglaterra, temerosa da concorrência que o desenvolvimento da nascente economia paraguaia, que já dominava a siderurgia, poderia lhe opor na América.

Nessa trágica campanha, um terço das tropas do exército brasileiro era rio-grandense. Não restou pedra sobre pedra da antes imponente e jovem nação paraguaia. O último exército a combater por aquele país era formado também por crianças, o que é um exemplo significativo do genocídio cometido contra aquele povo. Nem só de feitos heroicos vive a memória dos nossos "heróis".

Os italianos

A partir de 1875, começam a chegar os imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul, radicando-se na região serrana do Nordeste e Norte e fundando cidades como Bento Gonçalves e Caxias do Sul. Como o comércio, a agricultura em geral e a produção de manufaturados já estavam sob o domínio dos imigrantes alemães, os italianos vão dedicar-se, principalmente, à cultura da vinha, transformando o RS num dos maiores produtores de vinho do mundo.

A chegada da República

Na década de 80 do século XIX, o Rio Grande do Sul contava com dois partidos: o Partido Liberal e o Partido Republicano Rio-grandense. O primeiro, liderado por Gaspar Silveira Martins, tinha laços com o Império e era hegemônico em nível provincial, seja na Guarda Nacional, na assembleia de representantes, seja nos governos municipais. Sua base social eram os estancieiros e pecuaristas. Já o PRR, de Júlio de Castilhos, fundado em 1882, era um partido reformador, de clara orientação republicana, e aglutinava setores médios da população, entre eles, militares, estudantes, profissionais liberais, comerciantes, agricultores, etc. Seu programa, positivista, conformava itens como progresso econômico e ordem social, revelando-se a ordem como um eufemismo de autoritarismo e centralismo político.

Ao advento da proclamação da República, invertem-se localmente as posições de mando. Silveira Martins é exilado e seu partido sofrerá muitas mudanças de perfil. Júlio de Castilhos assume o poder e governa com mão de ferro. O estandarte republicano era então uma promessa que alimentava os sonhos das quase novecentas mil almas que habitavam a província naquela quase virada de século.

Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 14/03/2012
Alterado em 14/03/2012


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