"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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AFETO E REJEIÇÃO NOS RINCÕES PERDIDOS DO SUL

     No texto maiúsculo em que fixou a gênese do Rio Grande do Sul, a trilogia “O tempo e o vento”, Erico Verissimo traz um drama que, por muitas gerações, revelou-se como tragédia no meio das famílias gaúchas. Na primeira parte, “O continente”, temos Ana Terra grávida de Pedro Missioneiro, o índio evadido das Missões destruídas. Esse fato se mostra uma nódoa na moralidade familiar e o patriarca Maneco Terra manda os irmãos de Ana Terra assassinarem o índio, que encara seu destino com o fatalismo de quem cumpriu seu ciclo de vida.
     O filho de Ana Terra permanece no clã como testemunho vivo de um delito. Às escondidas, o avô brinca com o neto, mas o punhal da furtiva descendência o corta no cotidiano, com lembranças amargas e uma vergonha próprias da mentalidade da época. Por muitos e muitos anos, em muitas famílias rio-grandenses, uma filha grávida intempestivamente era símbolo de demérito, assunto proibido, capaz de desonrar lares, alvo de comentários negativos nas vizinhanças. Não raras vezes, as moças decaídas eram expulsas de casa, tendo que se virar sozinhas num dos momentos de maior desproteção de suas frágeis vidas. O resultado é que sofriam quem expulsava e a expulsa. Mas o tributo era cobrado e tinha-se que dar uma satisfação pública, um desagravo para consumo externo.
     Diante desse quadro tão recorrente, ganha relevo a reação do gaúcho simples do poema “Ejemplo”, do poeta uruguaio Serafin J. García (1905 - 1985). O pai, ao descobrir a filha grávida antes do tempo, abraça-a com carinho e a saúda pela ventura de parir uma nova vida. Em vez de escorraçá-la, protege-a. No seu carinho de pai, intuitivo diante da desgraça, deixa o afeto lhe servir de guia, sem admoestações que possam implicar injustiça. Os filhos são dádivas e o que vem deles não pode ser enjeitado, pois ventura traz ventura e amor traz amor. O coração paterno, ainda que de um gaúcho nos páramos das distantes campinas, pode estar em consonância com os novos tempos, descortinar novas ideias e formas de lidar com dramas seculares. O personagem do poeta poderia tomar um mate com Maneco Terra para falar de assuntos graves com uma perspectiva menos sombria.
     Esse tempo foi retomado com primor, numa inspiração livre, pelo poeta e jornalista Paulo Mendes. Em sua coluna “Campereada”, publicada no Correio do Povo deste domingo (7.10.2012), ele mostrou-nos o açougueiro Martiniano salvaguardando sua filha Luna em seu momento de “fraqueza”. O fato de ele ser leitor de poesia pode ser a centelha que o salvou de um julgamento injusto e dolorido.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 13/01/2013
Alterado em 29/05/2019


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