"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos


 
SUÍTE DO ITAQUI
 
I
"ITAQUIÊS"
 
No Itaqui a "cantera"
Refresca guri danado
O armazém é "bolicho"
E "chueco" é estragado
As ruas são de "aduquinho"
E blusão fica "esbrugado".
 
II
NO CAMPO DO QUERO-QUERO
 
No Itaqui da gurizada
Não tinha de lero-lero
Peleia e futebol
Era um programa sincero
Cada time era uma tropa
No campo do Quero-Quero.
 
III
A OFICINA DO CARDOSO
 
Consertar a bicicleta
No Itaqui era custoso
O bolso da gurizada
Andava sempre no toso
Mas pra uns era de graça
Na oficina do Cardoso.
 
IV
OS GRINGOS DA SERRA EM ITAQUI
 
Vinham os gringos da Serra
Pro quartel, me lembro ainda
Mexiam com Itaqui
Era esperada a vinda
Gostavam de melancia
E rapadura com Mirinda.
 
V
"PÂO DE BICO" - SÓ LÁ EM ITAQUI MESMO
 
Velha iguaria campeira
Com água na boca eu fico
Sempre na mesa do povo
Seja do pobre ou do rico
Primazia do Itaqui
Vos falo do pão de bico.
 
VI
O PÃO “FEITO EM CASA” DA MINHA VÓ
 
A memória e o tempo
Mantêm uma eterna rixa
Pra provar o pão feito em casa
Eu tinha a primeira ficha
Minha avó botava feijões
De olhos na lagartixa.
 
VII
BAÚ DAS PALAVRAS
 
Uma viagem ao Itaqui
Aprimora o português
Batata inglesa é "papa"
Ovo indutivo é "indês"
Beterraba é "remolacha"
E é "pão d'água" o pão francês.
 
VIII
UM VAGÃO PUXA O TREM
 
No Itaqui, não é lenda
Eu mesmo vi e dou fé
No tempo da ferrovia
Não tinha gaúcho a pé
Vinha um vagão de sinuelo
E o trem andava de ré.
 
IX
O NEGRO REPENTISTA
 
Negro da trova escoimada
Devoto da santa cana
Palmilhava o Itaqui
Em rapsódia mundana
Inda guri me encantei
Com os versos do Muçurana.
 
X
O JACARÉ NA PRAÇA
 
Eu vou contar pra vocês
E não conto por chalaça
Se outra cidade tivera
Mereceria uma taça
Num chafariz no Itaqui
Tinha um jacaré na praça.

XI
DO CAFÉ COM BOLACHA

Já comprei cento de lenha
E carreguei cada acha
Furou a bola nas Cafifas
Só com vaquinha se pacha
Café do bom no Itaqui
Só pode ser com bolacha.

XII
EVOCANDO O KICHUTE

Velho pisante povoeiro
Memória que repercute
No Itaqui, ao te calçar
Tinha a força de um mamute
Não teve asas na infância
Quem nunca usou um Kichute. 

XIII
PIÁ INCOMODATIVO

Quando guri era arteiro
Atrapalhava até missa
Não adiantava cancheada
Tinha a cara de caliça
E o meu avô tinha ganas
De me dar uma paliça.

XIV
DAS ARTIMANHAS DE POBRE

Fui tratorista pra fora
Comendo pão quebra-dente
Entre Itaqui e Alvear
Fiz chibo em noite inclemente
E morei numa bolante
Nos tempos tristes de enchente.

XV
DAS CHANGAS

Fiz changa no "matadero"
No rancho, a boia era rasa
No Itaqui, reparti leite
Pros galos dei "oh de casa"
Um dia peguei o fiambre
Pra viagem que me deu asas.

XVI
DAS ÁGUAS DO ITAQUI

As águas do Itaqui
Da memória fazem parte
Sesteou no Cambaí
Um tal Pedro Malasarte
Que se banhou no Uruguai
E pescou pacu no Quarte.

XVII
MESTRE PITOCO

Personagens no Itaqui
Vi no atacado e no troco
Falando chiado e com gírias
Esse era bom de coco
No jeitinho brasileiro
Ninguém batia o Pitoco.

XVIII
NO TEMPO DA DISCOTECA

Pra dançar no Itaqui
Se improvisava bastante
Bastava um anfitrião
E um três em um vibrante
No tempo da discoteca
Fui muito a reunião-dançante.

XIX
DO FUTEBOL NO ITAQUI

Do futebol no Itaqui
Eu me lembro muito afoito
Na várzea e no amador
O negócio era fuscoito
Fedia à tripa de ganso
No clássico 38.

XX
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

Do Itaqui, eu me alembro
E me quedo absorto
Dos peregrinos de outrora
No tempo do "Cristo morto"
Iam além da cidade
Colher marcela no Horto.

XXI
O HINO DE ITAQUI

"Filhos dos Sul e dos ventos"
E de um "pago sem jaça"
Adines, Cyro Gavião
Por vós minha vista se embaça
Nosso hino de Itaqui
É a metáfora da raça.

XXII
PEDRA GRANDE NO ITAQUI

Tinha uma pedra gigante
Na antiga rua Alegrete
Algum canhão do espaço
Expeliu tal tamborete
Só passavam duas rodas
Pedestres e algum ginete.

XXIII
TOUREANDO O MINHOCÃO

Eis-me aqui no Itaqui
É bom pisar neste chão
E à noite tem pescaria
No Uruguai, de lampião
É hoje que dou um pealo
Nesse tal de Minhocão.

XXIV
DO PICOLÉ DO ADÃO SILVEIRA

É sesteada no Itaqui
Na modorra da soalheira
Um piá fica atento
Aos sons da tarde fagueira
Outro guri há de trazer 
O picolé do Adão Silveira.

XXV
CHANGA NO SEU POLÍBIO

No Itaqui das vacas magras
Se afogava até anfíbio
Atrás de uns pilas pra boia
Nenhum changueiro era tíbio
Na Chacra fui bolicheiro
Na venda do Seu Políbio.

XXVI
DOMINGUEIRA NO CASSINO

“Mui” na chia com os pilas
E um porteiro pente-fino
Ia com a banda do Juca
Já de tarde, clandestino
Chuleando o baile da noite
Lá no clube do Cassino.

XXVII
DE "O MUNICÍPIO DE ITAQUI"

N'"O Município de Itaqui"
Toda a crônica local
Composto letra por letra
Num trabalho artesanal
João Rossy Nery era o esteio
Desse pioneiro jornal.

XXVIII
CHAMAMÉ COM DOM ISACO

Noite plecara em Alvear
Com vaga-lumes de sol
Na “hermanita” de Itaqui
“La calandria” em arrebol
Sorvi acordes costeiros
De Dom Isaco Abitbol.

XXIX
FANDANGO NO ITAQUI

Um fandango no Itaqui
Coisa mais linda não hay
A indiada e as percantas
Coleando num vem e vai
Co'a noite toureando o dia
Num fole do Virocai

 

XXX
MAÇAMBARÁ E ITAQUI

Antônio Gutierrez, pintor
Dos maiores que já vi
Me disse um dia as palavras
Que ora endosso por aqui:
“Não quero Maçambará
Separado de Itaqui”.

XXXI
PREFEITURA, POEIRA E QUARTEL

No tempo da ditadura
O Quartel vinha em primeiro
A patrola da intendência
Maltratando os chacreiros
Revolvia o pó que os autos
Lançavam aos ranchos lindeiros.

XXXII
À TARDINHA, NA CHACRA

A Chacra faz corredor
Entre cidade e campanha
No rancho, a prenda mateia
O peão degusta uma canha
E o guri abre o apetite
Falquejando um pão com banha.

XXXIII
DAS NÚPCIAS

No Itaqui, o pobrerio
Tinha apetite simplório
Com a cara preparada
De quem nem foi ao cartório
Eu me alembro, fui carancho
Nas festanças dos casórios.

XXXIV
DO JOGO DE TRUCO NO ITAQUI

Eta jogo de malícia
De tauras no vucovuco
Falta envido, vale quatro
Culhão não brota em eunuco
E foi na família Oviedo
Que aprendi a ensinar truco.

XXXV
DA "TILOGRAFIA" NO CENTRO OPERÁRIO

Hoje teclo sem assombros
Porque aprendi os segredos
No Itaqui, com uma Olivetti
Datilografei sem medo
O mestre, nas duas mãos,
Ensinava a quatro dedos.

XXXVI
DOS APELIDOS

Apelidos no Itaqui
Dominavam a paisagem
Xixo do Manja, o Sessenta
Benga, Querido e o Bobagem
Pinana, Coelho, Marija
O Butifarra e o Friagem.

XXXVII
DO RANCHO DE CHÃO BATIDO

Meu rancho de chão batido
Na Chacra, lá no Itaqui
Ânsias e sonhos infantes
Pulsavam dentro de ti
Eu te arranchei na minha alma
E nunca mais te perdi.

XXXVIII

DA CASILHA DO PORTO

Minha casilha do porto
Vitimada em Itaqui
Desmanchar pra fazer outra
É coisa que eu nunca vi
Tijolos em vez das pedras
O que fizeram de ti?

XXXIX
BOQUIRROTO DO ITAQUI

De Itaqui, um boquirroto
Cantor menor e venal
Desses que pegam carona
Em movimento social
Deu pra vir encher meu saco
Nas plagas da Capital


XL
O APITO DO TREM

Já na barriga da mãe
Eu assistia ao vaivém
Nos trilhos o estrupício
Que ao piá torna refém
O tempo levou pra longe
O meu apito do trem

 


XLI 
MOMENTOS DA INFÂNCIA

Traz a invocação da infância
Maresias à visão
O futebol, o açude
A pandorga e o pião
Vi saltos de paraquedas
Nos campos da aviação

XLII
FESTA QUE PROMETE


Se há baile há preparo
Porque pobre se realça
Cabelito na Dileta
Perfume chibo da balsa
E a arte da Dona Dalva
Pra botar nesga na calça

XLIII
SAUDAÇÃO REMOTA

Eu me lembro no Itaqui
De um cumprimento só
Passando pelas pessoas
Se afinava o gogó
Não tinha isso de “oi”
A gente lascava um “ó”

XLIV
DO FUTEBOL NA CHACRA

Nossa equipe de amarelo
Gostava do bom combate
Contra o time dos Motas
Do Chico e do Tomate
Se jogava por dinheiro
Pra evitar que desse empate

XLV
GUERRA NOTURNA

Nas quentes noites de estio
Esse inimigo maldito
Zumbindo e picando o povo
Que se armando pro conflito
Queimava esterco de vaca
Pra espantar os mosquitos

XLVI
O NEGRINHO PRESTATIVO

Na Chacra, havia um negrinho
Humilde, de boa ginga
Mandalete, cumpridor
Carpia, enchia moringa
Personagem da minha infância
Onde andará o Catinga?

XLVII
NO MATINÊ

Fui muito ao matinê
São Marcos e Centenário
Trocando muita revista
Por falta de numerário
Canal 100 e faroeste
Pealando o imaginário

XLVIII
DA HORA FINAL

Chegada a hora final
Cumpra-se o eterno rito
Fica a réstia de saudade
Laureada em verso expedito
Da terra xucra que um dia
Foi berço do Manoelito.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 02/07/2013
Alterado em 07/06/2019


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