"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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AS PALAVRAS SÃO TAIS QUAIS AS PESSOAS
 
    Muitas vezes, em sala de aula, e penso que meus colegas professores de Português confirmarão isso, os alunos se queixam do grande volume de palavras do nosso léxico e também das dificuldades para grafá-las corretamente. Os problemas de grafia se devem à inexistência de regras que se possam chamar de coerentes e que tenham o condão de serem aplicadas a um universo linguístico sem tantas exceções - peguemos, aleatoriamente, “revisar” e“revezar”, do fonema /z/. Por que não ter a mesma normatividade para os grafemas que representam esse fonema? Por pura convenção gramatical. O fato é que regras seguras e mágicas não existem. Daí, então, inevitavelmente, surge a pergunta: o que fazer?
    A verdade é que a resposta para essa pergunta é muito fácil, embora o procedimento correspondente não o seja, pois implica esforço, dedicação e disposição anímica nem sempre disponíveis em nossa configuração psíquica. A resposta pode ser resumida em ler, ler, ler e até mesmo reler. É na leitura que as palavras vão começar a fazer parte do nosso círculo íntimo de amizades e vão se tornar velhas conhecidas. É pelo ingresso em nosso vocabulário que elas vão se mostrar quando são escritas com x, com ç, com dois ss, com ch e assim por diante. Mal comparando, as palavras são como os desconhecidos que ainda não nos são singulares. Quando entram para o nosso cotidiano, já identificamos suas fisionomias e podemos individualizá-los mesmo quando nos deparamos com eles em meio a uma multidão.
   Assim como no convívio social, não podemos recear apreender novas palavras, que trazem em si mesmas as distinções de que precisamos para nomear objetos e ações no mundo. Esse universo fascinante é um dos poucos espaços permanentemente abertos para serem desvendados, com ganhos inestimáveis, pois quem descreve e escreve bem, ou, pelo menos, comunica-se para além do trivial, está mais bem preparado para interagir com a vida. Saudemos as palavras como novas e velhas amigas.

 
CORREIO DO POVO, PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 28 DE AGOSTO DE 2013
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 28/08/2013
Alterado em 28/08/2013


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