"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos


QUANDO SE CALA UM GRANDE CANTOR
 
     Em 1994, Noel Guarany já estava adoentado e impossibilitado de cantar. Em decorrência dessa situação, para mostrar que sua situação não era nada confortável, escrevi o texto que segue, publicado no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre-RS. Transcrevo-o agora como uma homenagem a esse ídolo de todos nós, gaúchos e missioneiros, na passagem dos 15 anos de sua morte. ocorrida em 6.10.1998. Sua morte física, registre-se, porque, Noel Guarany, a exemplo do que já se disse a respeito de Carlos Gardel, canta cada vez melhor e mais alto, denunciando as mazelas de uma sociedade excludente e elitista. Grácias, Dom Noel, por teu canto e por tua obra.
 
    QUANDO SE CALA UM GRANDE CANTOR
     "Si se calla el cantor, calla la vida." Essa frase do cantor argentino Horacio Guarany é emblemática da situação de vida hoje do maior cantor missioneiro que o Rio Grande já produziu, Noel Guarany. Doente, já sem poder cantar, carente de recursos, ele vivencia sua parcela de calvário na terra santa de Sepé Tiaraju. Paradoxalmente, é lícito presumir, em breve suas canções forrarão a guaiaca dos donos das gravadoras detentoras dos direitos de edição de suas músicas. A música do RS se divide em antes e depois de Noel Guarany. É a ele que devemos o resgate da cantiga de galpão, a retomada da memória histórica dos guaranis exterminados, o registro da franqueza e da rebeldia do gaúcho, as manifestações telúricas dos sonhos e das aspirações da gente simples do Rio Grande. A isso, deve-se somar um intercâmbio que ultrapassou fronteiras, aproximando culturalmente o RS, o Uruguai e a Argentina. Sua voz e sua guitarra fizeram-se entes mágicos que iluminaram a poesia de Jose Hernándes ("Martín Fierro") e nos brindaram com as coplas de Atahualpa Yupanqui, "o payador perseguido".
    Noel Guarany é um desses homens imprescindíveis, na versão de Brecht. Nunca mercadejou sua arte nem cortejou os homens do poder. Não buscou aplauso fácil nem a luz sagrada da mídia. Jamais compactuou com simplificações de festivais e artificialismos de CTGs. É esse homem de canto definido que cala momentaneamente a vida, afinando a garganta para ser ouvido num tempo que abre cancelas e reafirma uma crioula descendência.


Porto Alegre, jornal Correio do Povo, 4.9.1994, p. 20

 
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/10/2013
Alterado em 06/10/2013


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