"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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NOEL GUARANY: 15 ANOS SEM O CANTOR MISSIONEIRO
    No dia 6 de outubro, completaram-se 15 anos da morte do grande pajador missioneiro Noel Guarany. Ele foi o precursor no resgate de uma música olvidada na destruição das reduções dos guaranis, como sói acontecer com a cultura de quem sofre com os extermínios seculares, com sua memória aviltada. Junto com Pedro Ortaça, Cenair Maicá, Jayme Caetano Braun, Jorge Guedes, João Máximo, João Sampaio, Chaloy Jara e outros tantos baluartes dessa empreitada contra a indigência histórica que nos assola nestes caminhos do pampa, ele fez renascer os acordes de um canto original e marcado por uma mensagem que, mais do que subliminar, é precisa e objetiva, retomando os fonemas de Sepé Tiaraju, que um dia agitou as coxilhas para dizer que esta terra tinha dono.
   Seu canto de denúncia abarcava não apenas os índios, espoliados em suas terras, mas também as condições de trabalho do peão, que um dia foi guacho e gaúcho, mas teve que se fixar no marco das estâncias para ganhar a vida, trocando o sonho de liberdade das campinas pelo rancho de posteiro, onde o amor da prenda lhe fazia o contraponto de uma vida rústica, de dura faina.
    Certa feita, voltando de um exílio, Horacio Guarany, no recital de Luna Park, em 1984, em Buenos Aires, disse que não era culpa sua se não trazia flores em seu canto. A melodia é uma afirmação do engenho humano, mas ela requer uma sensibilidade livre, um entono que não se encontra nos submissos, para aflorar quando nomeia as mazelas ao derredor. A guitarra de Noel Guarany singrava o silêncio para dar vazão à sua voz de timbre único, que cantava desimpedido, sem “pedir bexiga pra ninguém”, como se costuma dizer lá nos oitões fronteiriços.
    Um simples artigo não dimensiona Noel Guarany, vate, guitarreiro, tapejara, missioneiro e cantor. Como cruzador de caminhos, percorreu a América Latina e de lá trouxe o canto de outros povos infelicitados pelos colonizadores. Desse caldeamento de destinos coletivos, tirou a seiva para cantar o gaúcho, esse personagem que é autor de si mesmo.

Porto Alegre, jornal Correio do Povo, 12.11.2013, p. 2. Foto do jornal Diário de Santa Maria.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 12/11/2013
Alterado em 12/11/2013


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