"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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A REBELDIA NÃO MORRE, FICA ENTRANHADA
    César Ricardo Osório (1959-2004) é uma dessas pessoas que deixam marcas indeléveis na vida daqueles que conviveram com elas. Uma única existência é pouco para dar conta da intensidade com que se fizeram presentes no mundo. É daqueles que não cabem em si mesmos e extravasam para preencher a incompletude dos que deixam espaços vazios pelo medo, pela alienação e pela inaptidão para viver.
   Conheci César Ricardo Ribeiro Osório no movimento estudantil nos anos 80 quando ele integrava uma organização de esquerda. Desde então tivemos uma amizade forjada nas ideias e no, por vezes simplório, desejo de melhorar esta sociedade carcomida pelo utilitarismo de coisas e de pessoas, um escravismo de última geração. O César era um gaiato compromissado com tudo o que fazia e levava seu cotidiano como se sempre estivesse vivendo o último dia. Nada lhe era estranho e estava sempre pronto para uma aventura, fosse com os livros, com a poesia, com os bares, com a revolução idealizada ou com as mulheres, que essas ele teve muitas, pois ele as decifrava na aparente fragilidade que elas têm, clarificando suas contradições, que não são delas, mas de um sistema injusto que as quer submissas.
   O professor, escritor e historiador César Ricardo viveu com desassombro e paixão. Das nossas atividades, ficaram os programas de rádio, em que posso ouvi-lo declamando poemas; as aulas que ministramos em cursinhos de Porto Alegre e região; as acaloradas discussões literárias e políticas; as festas noturnas em lugares onde a noite não dormia; os comícios em que acreditávamos em certos desacreditados de hoje; a luta pelo inelutável. Sua mais comezinha atividade implicava sempre quebra de paradigmas, constatação que ele fazia com um riso debochado que refinava a ironia.
    Há um episódio que talvez ajude a delinear quem foi esse militante das causas incomuns. Em 2000, a RBS e a Rede Globo colocaram um relógio do descobrimento do Brasil, na orla do Rio Guaíba, para fazer uma contagem regressiva para os 500 anos. Toda a esquerda ficou de olho nesse símbolo da dominação das elites. O dia em que foi furado o cerco policial e começou a destruição, um amigo ligou para o César Ricardo e avisou que estava começando o evento tão esperado. Sua reação foi imediata: “Deixem um pouco pra mim”. Como morava na Rua Riachuelo, muito próximo, em seguida ele já estava lá, feliz, ajudando a pôr abaixo a geringonça.
    Neste 22 de outubro, registra-se uma década da sua morte. Seu legado é o de crer na vida em todos os momentos, sejam quais forem. Sua rebeldia está viva e palpitante, entranhada na memória dos que cruzaram seu caminho. Os marxistas não morrem, renascem nas lutas.
(Fonte: Megalupa 29 - outubro-novembro de 2014)
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 30/11/2014
Alterado em 30/11/2014


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