"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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OS FAGUNDES COMEMORAM. EU LAMENTO

   Surgido nos anos 80, o programa televisivo Galpão Crioulo está comemorando 34 anos de oficialismos e dando o mote para que a Família Fagundes realize um documentário autoelogioso e laudatório sobre si mesma, projetando uma empatia entre seu grupo e a cultura do Rio Grande do Sul.
    Discutível, muito discutível isso. Esse programa, mais do que negligenciar a cultura gaúcha, funcionou como uma verdadeira contenção ideológica e escamoteadora da riqueza e da rebeldia culturais nessa década, mantendo essa linha desidratadora ao longo dessas quase três décadas e meia no ar.
    O formato já era adequado ao propósito desde o início. Nico Fagundes, no papel de um general Bento Gonçalves anacrônico, comandava com mão de ferro um espetáculo que tinha como tônica veicular uma música (eventualmente uma poesia) alienada, jocosa, diversionista e padronizada pela baixa qualidade. É claro que se pode garimpar algumas exceções, mas que só confirmam a regra. Se alguém tiver dúvidas acerca da mediania das composições, basta consultar o acervo de LPs e de CDs produzidos pelo programa.
    Produto de uma emissora que cresceu à sombra da ditadura militar, não foi difícil para o Galpão Crioulo assumir sua identidade de aliado do status quo. Passou a ser um braço cultural do conservador Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) e a separar a “joia” do trigo. Artistas rebeldes, como Noel Guarany (foto à direita), eram sumariamente excluídos enquanto outros, mais cordatos e alinhados com o viés reacionário do programa, eram exaltados. Numa época em que os músicos não tinham as redes sociais para divulgar sua arte, isso era um verdadeiro crime contra aqueles que necessitavam da mídia para conseguir trabalhar. E lembremos que não se pode aceitar a discricionaridade total por parte da produção do programa, uma vez que ele tem sua veiculação numa empresa com concessão pública, ou seja, limitada pelo interesse coletivo. Mas nunca foi assim.
    Como já escrevi anteriormente, se dependesse desse programete, até hoje a música gaúcha seria caricata, cantando o que era de interesse do patrão, dos latifundiários, dos donos do poder e dos grileiros, nunca do peão e do agricultor. Felizmente, como sempre ao longo da história, houve resistência a esse modelo venal, com muitos compositores e artistas se expressando para além dessa cancela elitista instituída pelo Galpão Crioulo. Nesta data em que tanto se tenta exalar esse clã, é a esses entrincheirados que eu quero render minha homenagem, porque deram uma identidade para a música nativo-missioneira, resistindo bravamente a um esquema que, mais do que de cultura, era de consolidação e de manutenção de um poder ideológico e coercitivo mantido por capatazes capazes como Os Fagundes.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 04/04/2016
Alterado em 18/12/2016


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