"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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          DITADURA MILITAR E CORRUPÇÃO
     Não é de hoje que ouço essa cantilena de que não existia corrupção durante o período do regime militar. Esse mito é alimentado pelo fato de que não havia uma imprensa livre e as redações eram controladas por censores a serviço dos militares. Desse jeito, realmente a população não tinha como saber de nada. Havia torturas, havia entreguismo das riquezas nacionais (via dívida externa para sustentar o “milagre econômico"), havia uma tutela na sociedade para que tudo o que era feito não tivesse contestação alguma. As vozes divergentes eram caladas com o argumento das baionetas. E havia Paulo Maluf e outros tantos da sua estirpe.
     Maluf, parlamentar, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, sempre foi um símbolo da impunidade gerado pelo regime militar. Inexplicavelmente (ou não), sempre conseguiu escapar de ser processado pela corrupção e propinas recebidas no superfaturamento de obras públicas, recursos enviados para o exterior. Tudo sob as dragonas do figurino verde-oliva. Agora, finalmente, talvez num exercício de mea culpa, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Maluf em um dos tantos processos em que era réu. Saiu barato.
     No regime militar era assim, aos amigos, tudo; aos desafetos, os desfavores da lei. Que o diga o caso do empresário Mário Wallace Simonsen, perseguido em seus negócios até ser aniquilado. Nem se pode dizer que cometeu o “pecado” de ser esquerdista. A narrativa é do jornalista, advogado, ex-ministro e ex-consultor-geral da República Saulo Ramos no livro “Código da vida”, uma obra imperdível para quem quiser conhecer o outro lado do balcão do poder.
     Calar a imprensa era uma das formas de impedir a divulgação de escândalos. Paulo Maluf se deu bem nesse período. E às vezes essa censura não tinha limites. O sentimento de impunidade era tanto que a tortura aos opositores era algo comum e banalizado. Foi o que aconteceu com Vladimir Herzog, um brinquedo de carne e osso nas mãos de sádicos e psicopatas a serviço de uma ideologia fascista que se dava ares de guardiã da segurança nacional. O patriotismo sempre foi uma boa roupagem para os clichês dos calhordas.
     Vladimir Herzog, na época, chefiava o jornalismo da TV Cultura, em São Paulo. Compareceu às dependências do II Exército, ao DOI-CODI, espontaneamente, para prestar depoimento sobre suas atividades como jornalista e homem de pensamento. Foi torturado até a morte e ainda simularam seu suicídio. Não era um guerrilheiro, para destoar da versão que alguns semeiam de que houve uma guerra em que vítimas mereceram morrer por obra dos golpistas de 1964. Mas, naquela época, jornalistas e intelectuais eram perigosos, porque repassavam verdades que contradiziam a realidade das aulas de Moral e Cívica. Era a Contrarreforma dos generais e os “infíéis” não mereciam viver, porque escrever sempre foi um ato que flerta com a subversão. Atrapalha tudo.
     Essa manipulação da história e da realidade ainda se faz presente e lembra as práticas de Stalin na Rússia na propaganda contra os opositores. Os saudosistas da era dos militares não se cansam de tentar reescrever os fatos. Agora mesmo, circula nas redes sociais uma foto manipulada com um discurso fraudado em que o delator Emílio Odebrecht afirma que nunca conseguiu corromper os militares. Ele nunca falou isso. Trata-se de uma distorção feita no laboratório de conservação das práticas iníquas do regime militar. Se isso é feito hoje, à luz do dia, o que não teria sido feito na escuridão de um regime autoritário que não admitia ser contestado? Não é apenas uma foto, é uma conduta, é uma saudade de um tempo de escuridão em que o mofo da desonestidade se fez herança que se estende até nossos dias nas tristes figuras de um Jair Bolsonaro, de um José Sarney, de um Fernando Collor de Mello ou de um Renan Calheiros, que usam gravata em vez de farda, mas que têm suas raízes nesse estamento vendilhão. A negociata automobilística, que sucateou as ferrovias, recebeu muitas continências.
     Essa mitificação da direita, entretanto, não é mérito exclusivo dela e dos seus acólitos. Infelizmente, a “esquerda” (com aspas sim), capitaneada pelo PT, houve por mal contribuir para esse saudosismo facista com sua traição ao povo brasileiro, subindo ao poder e nele instalando uma organização criminosa em parceria com os de sempre. Em vez de atuar para resgatar uma dívida social e econômica histórica com os pobres, preferiu saquear os cofres públicos num conluio sem precedentes. Evidentemente, a desilusão, que anda de mãos dadas com a perplexidade e a incompreensão, gerou um sentimento de decepção do presente que ajuda a adulterar o passado, mitigando os delitos daqueles que infelicitaram o país e que parecem hoje aprendizes de algozes diante da desenvoltura dos petistas graúdos para cometerem malfeitos em continuidade delitiva de forma coletiva. 
     Mas não se enganem: a corrupção de hoje vem de antes. O bastão superfaturado de hoje já foi uma baioneta em tempos idos. O colarinho-branco já usou farda. Uma saudade da ditadura militar é um ato de ingenuidade ou de má-fé. A participação popular no Exército é um mero detalhe para encobrir sua finalidade essencial. É sua cúpula, junto com a classe dominante, que determina seus rumos e essas manobras perante a história são cheias de prestidigitações que iludem olhares mansos e monopensantes. Consciências, volver!
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 27/05/2017
Alterado em 28/05/2017


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