"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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A SURPRESA DE PORONGOS
     A guerra farroupilha já se encaminhava para o seu final e o seu armistício estava sendo construído entre os líderes do Império e das elites gaúchas. De um lado, o então Barão de Caxias e, do outro, o general David Canabarro.
     Como já é sabido e consabido, os poderosos sempre têm mais interesses em comum do que deixam transparecer. É aí que entra a ideologia, que é uma transfiguração da realidade. Do lado farroupilha, a ideologia fomentada dizia que cada negro cativo que houvesse lutado pela República, ao fim e ao cabo, seria um homem liberto. Entretanto, essa promessa cabe bem em períodos de guerra, mas se torna incômoda em tempos de acordo. Os negros conformavam os grupos de lanceiros conhecidos como Lanceiros Negros, que tiveram, entre outros comandantes, o célebre coronel Teixeira Nunes. Já haviam prestado relevantes serviços para a República, como na invasão de Laguna.
     Em meio a uma paz costurada para preservar os interesses dominantes, notadamente por futuras refregas, como acabou ocorrendo na Guerra do Paraguai, os lanceiros negros deixaram de ser uma força necessária para os estancieiros, pois poderiam se tornar um grupo explosivo, armado, reivindicando melhorias sociais numa sociedade estratificada, sem se alinhar na defesa do Império.
     Para dar um encaminhamento a esta questão, surge uma carta de Caxias que instruiria Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, a fazer uma intervenção seletiva e a matar a tropa de negros, que estaria desarmada e indefesa, segundo combinação de Caxias com David Canabarro. O general farroupilha negou até o fim da vida sua conivência, mas o fato é que realmente deu ordens para que o grupo fosse desarmado, numa estranha coincidência, no episódio que ficou conhecido como o Massacre de Porongos. A carta dividiu opiniões e mesmo o sagaz general Bento Gonçalves da Silva chegou a acreditar no seu conteúdo.
     “No conflito poupe o sangue brasileiro quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro.” Na controversa carta, a sentença de morte destinada a centenas de republicanos desarmados.


Jornal Correio do Povo, Porto Alegre, p. 2, 21 de agosto de 2017.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 20/08/2017
Alterado em 20/08/2017


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