"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos


     No Correio do Povo deste 2.2.2019 (Porto Alegre-RS), o Caderno de Sábado traz um interessante estudo do professor de literatura e advogado Celso Augusto Uequed Pitol sobre Múcio Teixeira (foto), poeta viajor que marcou época no Rio Grande do Sul e na Corte. Recomendo a leitura por resgatar uma figura que, como o próprio articulista ressalta, só é lembrada como nome de rua da Capital. Os interessados na história da cultura sul-rio-grandense e na literatura gaúcha poderão facilmente ter acesso ao texto por meio do jornal, que está disponível nas bancas, nos arquivos do periódico e nas mídias digitais.
     Além de apreciar muito o enfoque textual do autor, a leitura me fez lembrar de que já havia escrito algo sobre Múcio Teixeira nos meus apontamentos sobre os primeiros ciclos literários do Estado. Fui buscar. A releitura depois de alguns anos me fez meditar se eu não havia sido excessivamente ácido com Múcio Teixeira, ainda mais diante de uma perspectiva na qual o analista ressalta suas qualidades, que são muitas, no campo literário. Deixo isso para os meus parcos e valentes leitores julgarem e reproduzo o verbete que escrevi a seguir. Boa leitura aos obstinados.


Múcio Teixeira (1857-1928) - Ex-militar, poeta, jornalista, teatrólogo, romancista, Múcio Teixeira pertenceu ao Partenon Literário e foi um dos pontífices na articulação do regionalismo e do seu mito principal, o do gaúcho. Viajante, alternou residência entre o RS e o RJ, onde consta que usufruiu da hospitalidade de D. Pedro II.
Guilhermino César, em estudo sobre o poeta, depois de exaltar sua inquietude intelectual, ressalta as diversas incompreensões de que foram alvos a figura e a obra de Múcio Teixeira, fruto, quem sabe, de sua nada recolhida modéstia.
Múcio Teixeira incursionou por vários gêneros e temas, mas é com Os Gaúchos e Flores do Pampa que lhe ficou assegurada uma vaga na galeria dos principais escritores rio-grandenses.
Através das Flores do Pampa buscou Múcio Teixeira reivindicar para si a primazia no estabelecimento da lírica gauchesca, que cultuou juntamente com Bernardo Taveira Júnior. Não obstante ser esta uma questão de difícil elucidação, permitimo-nos dizer que naqueles poemas de Múcio Teixeira a que tivemos acesso, e contrariando a posição corrente dos críticos, sua poesia regionalista é inferior à de Bernardo Taveira Júnior. Ela cresce nos casos em que se torna mais intimista e menos local. Como exemplo, vejamos os seguintes fragmentos, O primeiro é gauchesco, e bem ruinzinho; o segundo é de um romantismo universalista, bem elaborado literariamente, apesar da cacofonia ('o que é que sou') no segundo verso:

I
Eu sou o moço Gaúcho,
Valente como os mais guapos;
Filho e neto de Farrapos,
Republicano no mais!
Com o meu poncho de pala,
E laço e bolas nos tentos,
Vou mais ligeiro que os ventos
Por sangas e bamburrais...

II
Sendo todas as coisas, sem que se possa
Saber o que é que sou, e o que são elas;
Eu, na incerteza que de mim se apossa,
Confundo a luz do olhar com a das estrelas.

É dos meus olhos que essa luz se exala,
Ou recolho os seus raios na retina?
E no silêncio, em que minha alma fala,
Vibra uma interna música divina.


   A Múcio Teixeira deve corresponder uma boa dose de crédito literário, dada a admiração que despertou em mestres como João Pinto da Silva e Guilhermino César. Contudo, episódios como aquele em que ele lançou-se a desqualificar Machado de Assis como escritor são índices de um itinerário em que a pretensão lhe é sedentária e o talento nômade.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 02/02/2019


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