"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos


     SEM TER AS MÃOS POSTAS

     Cada vez me convenço mais de que a felicidade é uma ilha impossível de ser habitada num mundo cercado de tantas atrocidades. Gente passando fome (só Jair Bolsonaro não vê a fome alheia), abusos de crianças, assaltos, torturas, roubos, mortes de inocentes, um rol num ambiente permissivo para a criminalidade. Tudo isso tem um contexto em que se reafirma aquela máxima dos primeiros dias de aula no curso de direito: os bens são finitos e as demandas infinitas, além das patologias incidentes.
     A essa lista que citei, quero acrescer o feminicídio e suas tentativas, que são crimes que envolvem dois aspectos, mentalidade e maldade congênita. As mulheres acabam vítimas de crimes de ódio, de homens misóginos, da ação de quem deveria estar ao seu lado ou longe quando elas assim o decidissem. O machismo encontra terreno fértil em uma sociedade sem coesão, marcada pelo “cada um por si”. Se diz o provérbio que não há mal que sempre dure, nos dias atuais a dor alheia nem chega a existir para boa parcela da população. 
     Digo isso diante de uma notícia que me fez passar um dia em profundo desalento. O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Reynaldo Soares da Fonseca aceitou, na terça-feira, um recurso especial interposto pelo Ministério Público para aumentar a pena de Elton Jones Luz de Freitas a 16 anos de reclusão pela tentativa de homicídio da ex-namorada, Gisela Santos de Oliveira. Até aí a notícia pode parecer boa, afinal, ele teve a pena aumentada. Mas o que é o caso em si?
     Esse criminoso fez algo que é de causar repulsa, de pensar que qualquer pena é um apanágio para sua conduta desumana e cruel. Ele amputou mãos e pernas de Gisele com um facão. Acho que se fizesse isso com alguém da minha família, eu perderia toda o matiz de civilidade que me foi tão difícil de adquirir ao longo dos anos. Ela nunca mais terá as mãos postas como antes para reverenciar a vida.
     É preciso discutir o machismo e aperfeiçoar a legislação que envolve crimes contra a mulher, aprimorando a rede protetiva e investindo em uma prevenção real. Em relação a essa mentalidade machista, o filósofo e sociólogo francês Pierre Bordieu diz que parcela das mulheres também tem responsabilidade nessa visão de mundo excludente e perigosa. Afinal, todo homem costuma ser criado por uma mulher.
     Há alguns anos, publiquei um artigo no jornal Correio do Povo no qual defendi que toda mulher que entra num relacionamento amoroso deveria exigir um exame psicotécnico do seu pretendente. Não, eu não quis ser jocoso. Infelizmente, eu estava apenas sendo realista. As características de um futuro agressor, quando entremeadas com mesuras e belas palavras, não podem ser discernidas a olho nu.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 02/09/2019
Alterado em 03/09/2019


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