"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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O AGRONEGÓCIO DESTRÓI O BIOMA PAMPA

     Uma pessoa, em geral, tem uns 40 ou 50 anos de vida produtiva. Nesse desenlace, ela pode escolher formas de viver, algumas associadas ao ter, outras ao ser, algumas ao não ter ou ao não ser. Enfim, são muitas modulações que abarcam essa curta “longevidade”. Como resultado dessas opções coletivas e individuais, o mundo físico se transforma, muitas vezes com consequências trágicas para aqueles que não têm as ferramentas para resistir às investidas destrutivas de segmentos sanguessugas e indiferentes a outras formas de vida.
     Estamos tendo um exemplo ilustrativo dessa realidade adversa em relação ao bioma pampa, que são os campos rio-grandenses, majoritários nas regiões da Campanha e da Fronteira-Oeste e que se comunicam com vegetação semelhante dos campos argentinos e uruguaios, onde nasceu a figura do gaúcho. De acordo com estudos de diversos especialistas (Valério De Patta Pillar, Omara Lange, entre outros), a monoagricultura da soja avançou sobre as áreas pampeanas e já é majoritária. Segundo matéria publicada no Correio do Povo do dia 15.9.2019, assinada pela jornalista Simone Schmidt, em 2018, o Mapbiomas, portal de informações ambientais, registrou que, pela primeira vez em 34 anos, a área de uso da agricultura superou a de formação campestre (6,57 milhões de hectares contra 6,23 milhões de hectares). Isso significa uma perda ambiental de monta no tocante a espécies nativas da fauna e da flora para que a supremacia dos rendimentos da leguminosa se imponha, beneficiando uma minoria de grandes plantadores contra o interesse da coletividade. 
     Esse avanço da agricultura destrói não apenas os ecossistemas, mas também parte de um outro setor da economia, a pecuária, que convive muito bem com a sustentabilidade, além de atingir o epicentro da história gaúcha, uma vez que retira a paisagem onde nasceu e se desenvolveu o gaúcho errante, primeiro rebento “guacho” da cruza entre brancos e indígenas e depois herdeiro dos ofícios que propiciou a gadaria alçada das Missões Jesuíticas. Essa agricultura predatória, orientada pela balança comercial, é uma socialização dos prejuízos nos danos a um patrimônio comum e não renovável e uma privatização de lucros de uma atividade que enriquece uma minoria. Os tributos pagos são ínfimos e a riqueza amealhada pertence a uma parcela que usa um discurso que tem o pretexto da produtividade. 
     Em uma música gravada pelo cantor Noel Guarany, letra de Jayme Caetano Braun, avultam versos de uma realidade que mudou para pior:

Nasci num rancho, cresci num rancho,
Porém o rancho não é mais meu, (...)
Mudei de rumo, troquei cavalo,
Só minha sorte nunca mudou


     O gaúcho resiste à ganância dos que destroem seu habitat natural. Já não corre risco de vida pelas intempéries, pelas guerras, pelas gineteadas com potros rebeldes, pelas duras lidas que consumiam e ainda consomem sua existência. Agora, o inimigo é outro, vendido como se fora um grande aliado, mas é o seu inimigo mais poderoso, o agronegócio que lhe retira o espaço de sua gênese e o deturpa perante a realidade. As antigas distâncias estão sendo encurtadas pela soja e o pampa hoje é uma vista que se minora no horizonte. As tais das commodities enchem as burras de uma elite enquanto as guaiacas, vazias, vão sendo relegadas num pampa entricheirado pelo vandalismo socialmente aceito.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 30/09/2019
Alterado em 02/10/2019


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