"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Meu Diário
05/07/2013 18h18
DIGITALIZAÇÃO DA MEMÓRIA CULTURAL (SUNAMITA PORTE)

    Sinto-me cada vez mais pressionada pela digitalização nociva da informação, por sua atraente e persuasiva aparência. Digo isso por que percebo que o nosso inseparável amigo livro ganha novos designs, aplicativos e afins com a ingênua intenção de acessibilidade e praticidade. É o que chamamos agora de "livro digital". E não apenas o livro, mas outros meios informativos como revistas e jornais estão encaminhando-se para a digitalização total da informação.
    São fantásticas conquistas como essa e confesso que realmente trazem consigo praticidade e não possuem problemas relacionados à conservação física. Mas não posso negar que esse fato causa-me espanto e extrema preocupação. Seria esse o fim de arquivos históricos e dos museus? Seria esse o fim da valorização da memória cultural impressa? Pois não conseguiria imaginar daqui a 100 anos um tablet com um arquivo de um livro desta época presente em um museu. Em havendo, seria memorável. E quanto a pesquisas acadêmicas? Podemos encontrar tudo no "Mr. Google"? Certamente que não. Pesquisar um autor, por exemplo, requer muito mais que ler sobre sua vida e obra. Tocar seus objetos e ver seus manuscritos pode nos trazer informações que um arquivo digital jamais poderia. A caligrafia do autor expressa em seus escritos e o cheiro de seus objetos nos imerge em seu universo de tal maneira que seria impossível compará-la a qualquer tecnologia que ouse tentar fazer isso.
    Essa digitalização não atinge apenas a informação, mas atinge também a cultura, a história e, por que não dizer, a memória de cada um de nós. Temo pela digitalização da opinião. Digo isso porque certamente na falta da pesquisa acadêmica nos arquivos históricos, o pesquisador será levado a interpretar a opinião da opinião. Não estou dizendo que a informação digitalizada é invalida, mas sim que nem tudo pode ser registrado na escrita.
    Nossas lembranças não são digitais e tampouco programáveis. Somos reais, de carne e osso, assim como nossa trajetória coletiva. E ela não é contada apenas textualmente, mas está impressa no que escrevemos e no que fazemos. Sendo assim, aos queridos leitores, peço que guardem esse jornal impresso. Daqui a anos, ele também nos ajudará a contar nossa história.


Acadêmica de Letras na PUC-RS

Artigo publicado no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, em 4 de julho de 2013.


Publicado por Landro Oviedo em 05/07/2013 às 18h18


"A VIDA É BELA. QUE AS FUTURAS GERAÇÕES A LIMPEM DE TODO MAL, DE TODA OPRESSÃO E VIOLÊNCIA E A DESFRUTEM PLENAMENTE." (LEON TRÓTSKI)