"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos


BOLÍVAR, QUIXOTE DA LIBERDADE

     Em 1805, um jovem aristocrata, venezuelano e "crioulo", contemplando do Monte Sacro as ruínas de Roma, lançou uma proclamação que bem poderia ser um blefe perante a história: prometeu libertar sua terra sul-americana do jugo espanhol.
     Simón Bolívar (1783-1830), o autor do pronunciamento, viria a tornar-se o libertador de seis países - Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Panamá -, quase um continente. E passaria à história como "El Libertador". Segundo as circunstâncias o exigiam, foi presidente, general, ditador (a este termo, dê-se a dimensão da época). Mas o título que ostentou com orgulho, e com o qual fez questão de ingressar na posteridade, foi o de Libertador. Quando da sua segunda investida pela pátria e pela liberdade, que foram quatro até sua liberação total, o título de Libertador lhe foi ofertado na ruas, em sua marcha triunfal, aos vivas entusiastas de seus compatriotas.
     Bolívar, com seu sonho de união de todo um continente, formando uma só pátria, uma só nação, uma só América, mostrou-se um visionário, um Quixote destas plagas. Contudo, os moinhos advindos do domínio espanhol foram todos derrubados - eram inimigos visíveis. Os que resistiram à perícia desse cavaleiro andante foram erigidos por seus contemporâneos, aqueles que foram os maiores beneficiários de sua obra. Interesses mesquinhos, ambições desmedidas, ódios aparentes ou dissimulados e venalidades de toda espécie terminaram por sepultar o sonho bolivariano. As elites crioulas acabariam por considerar Bolívar estrangeiro em seu próprio país.
     O general nunca veria o destino grandioso de sua pátria. Mas ele sempre buscou dar-lhe os ingredientes para tal, envidando para isso sua própria vida. Buscou a fraternidade e a igualdade, para ele simbolizadas na República. Libertou os escravos, fazendo-se precursor da luta social. Despojou-se de toda ambição material, mostrando-se franciscano no trato com os bens da nação.
     Neste ano de 2000, completam-se 170 anos da morte de Simón Bolívar. Como um dos grandes condores da América, ao lado de Artigas, Martí, Guevara, Sucre e tantos outros, sua obra é o legado de um homem que perseguiu ardentemente um ideal. "Deus concede a vitória à constância", dizia ele. A constância de Bolívar, forjada com a têmpera do aço, era capaz de demover deuses.



Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil
PORTO ALEGRE, SEXTA-FEIRA, 20 DE OUTUBRO DE 2000.


 
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/03/2012
Alterado em 25/01/2019


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