"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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VIDA, LUTA E MORTE NA COLÔNIA DO SACRAMENTO

     O eterno embate entre brasileiros e portugueses, por conta das conflitadas relações entre metrópole e colônia, nos leva à predileção por anedotas em que nossos patrícios figuram como personagens picarescos. Entretanto, engenho e arte nunca faltaram aos lusitanos, seja nas técnicas de guerra, seja nos fundamentos da navegação.
     É ilustrativa dessa argúcia a fundação da Colônia de Sacramento, em 1680, em áreas então em disputa por conta das lacunas do Tratado de Tordesilhas, de 1494, pelo qual Portugal e Espanha estabeleceram seus domínios nas terras recém-descobertas e a descobrir. Em suas possessões na América, a Espanha preferiu uma ocupação de matriz evangelizadora, enquanto os portugueses optaram por aproveitamento econômico e assenhoramento militar. Assim, a fixação de Sacramento em áreas que a Espanha considerava como suas, às portas de Buenos Aires, foi uma estratégia inovadora e acertada, que garantiu a Portugal um posto avançado e passível de ser negociado, como se viu no Tratado de Madri, de 1750. Além disso, constituía uma forma de participar do intenso e lucrativo comércio da região.
     Já no ano da sua fundação, a Colônia do Sacramento foi atacada pelos espanhóis, iniciando uma série de disputas, de idas e vindas, de tomadas e retomadas. As tropas do governador dom Manuel Lobo são violentamente acossadas por um contingente demasiadamente superior. Nessa batalha, o capitão Manuel Galvão luta renhidamente, morrendo e tendo sua espada reempunhada por sua esposa, Joana Galvão, uma precursora de Anita Garibaldi, morta a seguir. Até os inimigos lamentaram essas perdas, pelo exemplo da valentia. No episódio, dom Manuel Lobo é feito prisioneiro e levado para Buenos Aires, onde morre no cárcere, em 1683, longe de sua Pátria.
     A área do Forte de Sacramento é hoje a cidade uruguaia de Colônia. Durante os intermitentes períodos sob bandeira portuguesa, serviu como ponto de partida e de chegada dos tropeiros que abriram novas rotas para ligar o Sul com o centro do país, fixando o gaúcho, então nômade, nas estâncias sulinas. Por esses caminhos, vieram os paulistas, cuja contribuição para a formação do rio-grandense nem sempre é devidamente valorizada.
     A geografia atual do Rio Grande do Sul assumiu sua forma definitiva em 1801, com Borges do Canto e outros aventureiros. Nessa trajetória, a ousadia dos portugueses foi essencial, imiscuindo-se em território impreciso para ter moeda de troca numa diplomacia em que as armas pesavam tanto quanto a pena.


Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil

Ano 116 Nº 291 - Porto Alegre, Segunda-feira, 18 de Julho de 2011.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/03/2012
Alterado em 03/02/2018


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"A VIDA É BELA. QUE AS FUTURAS GERAÇÕES A LIMPEM DE TODO MAL, DE TODA OPRESSÃO E VIOLÊNCIA E A DESFRUTEM PLENAMENTE." (LEON TRÓTSKI)