"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos

LITERATURA E SENTIDAS AUSÊNCIAS

     Neste 2 de novembro, fazemos uma pausa na faina diária para relembrar aqueles que passaram por nossas vidas de forma indelével, deixando-nos seu legado e tornando-nos seres humanos tributários de um convívio efêmero e profundo. A memória é prodigiosa vitória sobre o tempo, que nos permite reviver as águas passadas sob o moinho do cotidiano.
     A capital dos rio-grandenses está em efervescência cultural por conta da Feira do Livro, que todos os anos aproxima a praça do povo, de um povo que lê e relê sua identidade, suas crenças e matizes próprios. Por entre as alamedas da Praça da Alfândega, transitam milhares de gaúchos e visitantes de outras plagas, personagens de um espetáculo que encanta e enleva. Todas as presenças ajudam a conformar o êxito de um megaevento nobre, que tem como substrato a leitura, os leitores e os que escrevem. Muitos vêm, assim como muitos já vieram e deixaram sua contribuição, emoldurada na distância como a reverberação de uma manhã ensolarada. Ainda ouço suas vozes e cálidas presenças por entre os pavilhões da Feira.
     Aos poucos, vou divisando o poeta Nélson Fachinelli, carregado de livros e convites para atividades culturais. Avulta o ator David Camargo, sempre com a última novidade sobre ele próprio. Relembro o saudoso professor Felizardo, de verve impagável e chistes geniais. Mais um pouco e encontro Sérgio Jacaré, nosso Juan Rulfo gaúcho, do qual tenho as últimas imagens gravadas quando lancei um livro na SMC; vejo Carlos Aguiar, poeta do movimento negro, que lutou contra o véu do preconceito que se abate sobre sua etnia há séculos; Mozart Leitão, ilustrador, jornalista e compositor, de múltiplas facetas artísticas; Meme Meneghetti, conhecido por sua performance como Sancho Pança, esquete de sucesso entre os leitores de todas as idades. Por entre as barracas, vejo Carlos Reverbel garimpando livros, esteta da linguagem, com quem troquei cartas que guardo como honrarias. No centro da Feira, lá está o professor e escritor Laury Maciel, que instalava ali sua tribuna informal para alinhavar um comício contra as crônicas injustiças sociais do país. Mais adiante, caminho com Antônio Augusto Ferreira, autor de "Veterano" e "Entardecer", pérolas do cancioneiro gaúcho. No bar, encontro o poeta e professor César Ricardo Ribeiro Osório, irreverente, irrequieto, rebelde, que partiu sem publicar a obra acalentada. Todos são vultos vivos da minha jornada.
     Neste dia feito para lembrar, a par de queridos entes familiares que se foram, quero reverenciar os amigos da alma, eternos na saudade.

Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil

ANO 117 Nº 33 - PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 2 DE NOVEMBRO DE 2011.



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(Jornal Megalupa)
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/03/2012
Alterado em 17/09/2018


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