"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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O MISTÉRIO DE QUARAÍ, CIDADE DOS ESCRITORES

Apesar de ser fronteiriço, nascido em Itaqui, ainda não tive oportunidade de conhecer Quaraí, uma cidade-irmã da minha terra. Esse município, situado a 590 km de Porto Alegre, com cerca de 23 mil habitantes, encerra um mistério que bem poderia ser objeto de estudo de escritores e historiadores apaixonados por nossa cultura e por nossa história singular. Não há, aparentemente, nada que possa explicar, a não ser pelos desígnios dos seres mitológicos que traçam os destinos da literatura, por que essa cidade apresenta o maior índice de concentração de escritores de primeira linha nascidos em um território. Assim como há uma cidade gaúcha conhecida por ser a "cidade dos gêmeos", epíteto dado a Cândido Godói, Quaraí bem que poderia ser retratada como a "cidade dos escritores". E que escritores!

Nessa constelação de artistas da escrita, de intérpretes da almas angustiadas e desvalidas, da sintonia com as ânsias coletivas por um mundo melhor, vamos encontrar uma plêiade que se pode dizer da melhor cepa gaúcha e brasileira. O mundo, ou o nosso mundo, não seria o mesmo se não houvéssemos tido as presenças determinantes e insubstituíveis de Luiz Menezes, Carlos Reverbel, Nílson Bertoline, Lila Ripoll, Dyonelio Machado e Cyro Martins.

Carlos Reverbel foi jornalista, ensaísta, pesquisador, um "faz-tudo" do Regionalismo. Luiz Menezes é autor de clássicos como "Piazito Carreteiro" e "Última Lembrança", além de cumprir múltiplas tarefas culturais. Nílson Bertoline foi poeta de longas angústias e vida curta, retirando-se da vida aos 20 anos. Um dos cem exemplares de sua poesia, isso mesmo, apenas cem livros, publicados pela Editora Globo, foi-me emprestado pelo poeta Luís Carlos de Arapey, seu conterrâneo. Lila Ripoll foi poetisa de sonhos generosos, como o de mudar uma ordem ainda injusta, ombreando nisso com Dyonélio Machado, militante político e escritor, autor de "Os Ratos", obra genial e instigante, inúbia por onde a arraia-miúda revela sua densidade psicológica. Já Cyro Martins, na trilogia do gaúcho a pé, escreve o epitáfio do monarca das coxilhas e traz a lume o drama do peão expulso do "paraíso" da estância.

Uma das canções mais lindas que têm Quaraí como tema, de autoria de Jorge Amarante, "Meu Quaray Mirim", foi gravada por Noel Guarany. Essa cidade que me encanta de longe, já ganhou meu coração há muito tempo e tenho certeza de que algum ancestral meu já adentrou suas paragens e por ela sentiu-se arrebatado, assim como me ocorreu na leitura de seus ourives da linguagem.


Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil
ANO 117 Nº 94 - PORTO ALEGRE, SEGUNDA-FEIRA, 2 DE JANEIRO DE 2012.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/03/2012
Alterado em 04/02/2018


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