"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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     O SUS DO CORONAVÍRUS E O SUS DOS POBRES

     A epidemia do coronavírus já se constitui numa ameaça séria à saúde da população a partir do seu surgimento na China, onde já houve quase 500 mortes e há mais de 20,4 mil infectados em mais de 20 países. Seus sintomas são febre, tosse, dificuldade em respirar e falta de ar. Em quadros mais graves, há registro de pneumonia, insuficiência renal e síndrome respiratória aguda grave.
     Diante dessa realidade, o governo brasileiro está tomando uma série de medidas preventivas. Há todo um aparato sendo montado, que envolve leitos de hospitais para os casos suspeitos, máquinas de última geração, laboratórios reservados, profissionais requisitados e até mesmo aeronaves estão sendo destinadas a trazer brasileiros do exterior. Parece que até os R$ 2,7 bilhões da lei sancionada por Jair Bolsonaro para financiar campanhas políticas não irão fazer falta. 
     Enquanto isso, no Brasil da carestia, milhares e milhares de pessoas aguardam na fila por uma cirurgia, por uma prótese, pelo início do tratamento do câncer (que deveria começar em até 60 dias após o diagnóstico), por um exame, por uma consulta com um profissional especializado, por tanta coisa no varejo sem que os donos do atacado se preocupem com isso. São tantas mortes silenciosas, tantas dores não ouvidas, tantas lágrimas evaporadas sob a indiferença dos governantes de plantão, tantas esperanças trituradas, tantos corpos sendo consumidos por doenças no mais das vezes curáveis. A psicopatia que integra a mente dessa elite cruel não tem tempo para desvalidos.
    Todavia, basta aparecer uma chaga que possa atingi-los que repentinamente eles se transformam nos paladinos da saúde pública. De repente, não mais do que repente, eles se acham no radar do coronavírus e correm para, antes da nação, proteger a si mesmos. Aí, as verbas aparecem, a logística mostra sua eficiência, a comunicação com o público se estabelece, as autoridades se desentocam e os discursos se tornam didáticos dentro dos achismos revestidos de tecnicidade. Então a plebe se torna importante porque ela pode contaminá-los e assim atingi-los em seus pedestais sociais. É preciso agir com celeridade para evitar que um vírus ousado possa unir ricos e pobres na mesma desdita, sem privilégios.
     Nesse ínterim, os desassistidos continuam à margem do SUS no Brasil real. Nele, não se pede um dedo para ganhar a mão, mas se perde a mão por não tratar do dedo. Famílias continuam a ser dilaceradas pela iniquidade oficial, sem lenço nem documento, sem receitas nem remédios. Nessas alturas,  lembrando que Mario Quintana dizia que o pior dos problemas da gente é quando ninguém tem nada com isso, todo cidadão abandonado à própria sorte, no seu pequeno drama pessoal, muitas vezes rumando para o óbito, certamente, ao ver toda essa rede assistencial se formando, trocaria de bom grado sua enfermidade ignorada por uma infecção do coronavírus. Muito provavelmente, deixaria de ser invisível. Seria um negócio da China.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 03/02/2020
Alterado em 05/02/2020


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