"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
Textos


     CARTA ABERTA À JUVENTUDE PORTO-ALEGRENSE DA CIDADE BAIXA
     Cuidado, essa gente careta e cafona quer minar vossos pés, quer implodir vossas alegrias, quer tirar-vos o riso e a ousadia desta vossa fase maravilhosa da vida. Os poderes constituídos, carcomidos nas suas responsabilidades e vorazes nas suas ânsias de reprimir, estão sempre empenhados em aumentar a voltagem da exploração, em encontrar fórmulas para disfarçar sua incompetência gerencial e em dar às elites aquela falsa sensação do sono justo para que eles possam dormir sobre sua própria indiferença ante as mazelas sociais. O desemprego, o pão caro, a má escola, o alto da preço da passagem, as crianças sem creches, tudo isso é mistificado com discursos vagos e norteadores de uma falsa meritocracia.
     A prefeitura de Porto Alegre, governada por um aristocrata impermeável aos anseios populares, Nelson Marchezan Junior (PSDB), quer implementar uma proposta que proíbe os jovens de beber nas ruas de Porto Alegre, começando pelo bairro Cidade Baixa. Bem dizia Montesquieu (1689-1755) que a pior tirania é aquela que se faz à sombra das leis, com a aura de legitimidade. Essa proposta é totalmente inconstitucional, mas isso não causa a esses senhores nenhum melindre e a própria imprensa, representada pela RBS (afiliada da Globo), aquela que sempre apoia privatizações e pedágios, já está saudando a proposição de forma entusiasmada. Quanto ao STF, é capaz de colocar qualquer recurso contra uma futura lei no arquivo morto, como gosta de fazer sua banda podre.
     E por que esses governantes investem contra vós, contra vossas alegrias, contra vosso alarido, contra vossa ânsia de vida? É por muito mais do que inveja, muito mais do que por inapetência por terem ficado ultrapassados, é por muito mais do que por reacionarismo diante de vossa rebeldia, é por muito mais do que despeito por vossas ereções prolongadas ou pelo desejo que pulsa em vossas veias. É um pouco por agressividade e outro tanto por medo.
     A agressividade vem acompanhada da truculência policial, do cassetete remoto que esses governos manejam de forma covarde. Essa agressividade é porque bater primeiro, e nem entender depois, é a melhor prevenção de que eles são capazes, é para gerar a intimidação e desarmar a crítica, a união dos jovens, é querer mostrar quem manda e como as pessoas devem viver, de acordo com as regras de um direito feito sob encomenda para as oligarquias.
   Já o medo que eles têm é porque vós sois desassombrados, idealistas, rebeldes, que não alienam ideias nem sentimentos. Em vossos corações não há lugar para esse senso de negociatas e para a vileza que as cãs dos canalhas vão incorporando ao longo do tempo. É exatamente isso que eles temem, porque não podem vos comprar e corromper. Eles têm medo de uma geração que não aceita essa cartilha de cifrões, essa falsa respeitabilidade que eles tentam transmitir ao passo que aviltam a vida em seu entorno.
     Não deixeis de resistir. Eu desejo que vós empunheis vossa cerveja e que, empunhando também vossa vocação de rebeldia, tomeis as ruas e para dizer não a essa gente velhaca e intragável. Que haja “cervejaços” e afins na Cidade Baixa, na Prefeitura de Porto Alegre, na Câmara Municipal, no Palácio Piratini e onde mais se faça necessário. Parafraseando o grande Castro Alves, as ruas são do povo como o céu é do condor. Não permitais que eles vos queiram retirar dos lugares centrais para diluir-vos nas invisibilidade da periferia. Essa eugenia é indigna e vossas vozes devem ser ouvidas onde melhor vos aprouver. Num mundo de malfeitos, a juventude irrequieta e generosa encarna a esperança de que é possível desarmar um futuro que se avizinha como se fora uma bomba-relógio devastando vidas e triturando os sonhos de milhões de deserdados. 




 
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 10/02/2020


Comentários


"A VIDA É BELA. QUE AS FUTURAS GERAÇÕES A LIMPEM DE TODO MAL, DE TODA OPRESSÃO E VIOLÊNCIA E A DESFRUTEM PLENAMENTE." (LEON TRÓTSKI)