"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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     OS NOVOS AGRADOS DO PT A BOLSONARO

     Em fevereiro, a polícia dirigida pelo PT baiano deu ao clã de Jair Bolsonaro e ao próprio um presente daqueles que só membros no topo de organizações criminosas podem se dar entre si: um arquivo morto, um cadáver que levará para o seu túmulo todos os segredos de que dispunha acerca de crimes praticados pelos seus comparsas e por gente da sua família organizada. Certamente, esse acordo espúrio representa muito em termos de busca comum de escapar à condenação pelos seus crimes. Nélson Rodrigues afirmou que o brasileiro só é solidário no câncer. Eu acrescentaria que tal sentimento de delituosa fraternidade grassa também na impunidade.
     Não é difícil de sentir estranheza no caso em tela. Eram 70 homens devidamente armados e bem alimentados contra um, o capitão Adriano da Nóbrega, ex-Bope do Rio de Janeiro. Houve um cerco e o aliado da família Bolsonaro foi abatido a tiros de curta distância. O que ele sabia não era pouco e envolvia peculato, milícias, lavagem de dinheiro, corrupção, funcionários fantasmas e enriquecimento ilícito, tudo associado ao gabinete do então deputado estadual fluminense Flávio Bolsonaro. Graças à polícia do governador Rui Costa (PT-BA), o capitão Adriano morreu fechando as comportas da verdade. E isso que ele já havia alertado publicamente que o interesse não era prendê-lo, mas transferi-lo do plano terrestre para outras paragens virtuais. Eu até estranhei a aparente indignação do agora senador Flávio Bolsonaro, que deveria estar aliviado, em face da execução, mas, depois, atribuí a um teatrinho para demover algum familiar do morto a apresentar algum documento. Sim, porque não acredito que um homem que sabia tanto não teria provas espalhadas por várias latitudes.
     Algum petista mais fervoroso poderia dizer que não é bem assim, que estou lançando injúrias ao vento (aliás, vários disseram). Só que isso não se deu de forma isolada. Faz parte de um contexto em que os ditos opostos se unem. Nunca nos esqueçamos de que o então deputado federal Jair Bolsonaro, do baixo clero, era da base aliada do governo petista de Lula. Eles discordam só em dias de festa. Nos dias de adversidade, se protegem. E tiveram uma união estável marcada pelo clientelismo.
     Essa tendência que indiquei lá em fevereiro, agora ganha mais dois episódios que a reforçam. Diante dos atos tresloucados de Jair Bolsonaro e de seus apoiadores em defesa de uma intervenção militar e de erradicação do pouco de democracia formal que ainda temos, a postura do PT é de causar indignação. Quando vários partidos protocolaram pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro, Lula recomendou que seu partido não fizesse o mesmo. Está livrando a cara do miliciano impostor que está na presidência da República, praticando muitos crimes de responsabilidade. Mas o apoio disfarçado a Bolsonaro não para por aí.
     No episódio em que o STF impediu a posse de Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal, Lula defendeu o direito de nomeá-lo, mesmo sabendo que tudo o que o presidente quer é ter um araponga na PF para informá-lo de investigações contra sua família. Certamente, o ex-presidente quer dar razão retroativa à ação de Dilma Rousseff, que queria nomeá-lo ministro para lhe dar foro privilegiado, em circunstâncias assemelhadas, que atentavam contra princípios constitucionais. Aqui, temos o sujo defendendo o mal-lavado.
     No momento em que Jair Bolsonaro abre o balcão de negociações com a velha política, quando seus milhões de eleitores já não o apoiam maciçamente e abominam suas estultices, quando o sadismo presidencial minimiza os milhares de mortos na pandemia, quando se faz urgente retirar esse sacripanta da presidência da República, que ele considera como sua e de seus amigos correligionários, o que faz o PT? Amacia, ameniza, mitiga, amortece, tergiversa, desconversa, faz que não é com ele. Se a omissão faz os cúmplices, não é de hoje que Lula está acumpliciado com Bolsonaro. Há uma máxima de que as atitudes falam mais do que as palavras. Concordo. As palavras podem confessar ou não. Já as atitudes podem incriminar porque constituem os próprios fatos delituosos. Ou tentam escondê-los numa teia repugnante de ajuda mútua que encobre um corporativismo odioso que aprisiona o país ao atraso e ao caos, sempre à mercê de espertalhões e de malfeitores.

Em tempo: a união de Lula e Bolsonaro contra o ex-juiz Sérgio Moro não é fortuita.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 06/05/2020
Alterado em 07/05/2020


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