"Como dois e dois são quatro/Sei que a vida vale a pena/Embora o pão seja caro/E a liberdade pequena" (Ferreira Gullar)
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OS VERBETES GAUDÉRIOS DE UM CAMPEADOR DE PALAVRAS

     Vida de dicionarista está longe de ser glamourosa. Na introdução do “Grande dicionário Sacconi” (2010), o professor e pesquisador Luiz Antonio Sacconi, logo após concluir sua obra e revisitar o trabalho hercúleo e meticuloso que havia feito, fez dois comentários de alta pertinência. Primeiramente, disse que entendia por que o país havia produzido tão poucos dicionaristas ao longo de sua história. Depois, acrescentou que, sabendo agora o que teria de enfrentar, com anos e anos de esforços sobre-humanos, nem que lhe oferecessem 10 bilhões de dólares ele aceitaria realizar sua empreitada lexicográfica. Sacconi achou tudo “um saco”, como diz essa famosa expressão idiomática. 
     Essa reflexão me vem a propósito do manuseio da obra “Dicionário Poético Gaúcho” (2015), de autoria do poeta e escritor José Atanásio Borges Pinto, que trouxe a lume um livro que resgata termos empregados no Rio Grande do Sul e alhures acompanhados de um fragmento literário que o legitima e contextualiza.      Assim, por exemplo, temos o seguinte verbete: 
Cuerada é uma palavra
Que significa questão
Ganha sem luta, no grito,
Insulto, provocação.

E a seguir, o autor exemplifica o verbete com uma estrofe de autoria do poeta e pajador Jayme Caetano Braun:
(...) largaram uma cuerada
Para o taura que ia saindo
Ele voltou – meio rindo,
Largou de esgueia o facão
Que pegou de refilão
- Oigalê, pontaço lindo!. 

     E é assim, unindo verbete e literatura, trazendo nacos ilustrativos da própria lavra ou com o complemento a partir do nosso cancioneiro poético e literário, que o autor vai trançando as guascas de couro cru da semântica, dando a polpa de contorno aos vocábulos diáfanos e desconhecidos, tornando-os aparentados dos falantes. Esse trabalho operoso, que se insere numa antiga tradição de almanaque e de reculuta cultural, honrando a memória de um Simões Lopes Neto, de um Pereira Coruja ou de um Apolinário Porto Alegre, é uma grande contribuição desse poeta e pesquisador que já brilha na seleta nativista com suas letras sensíveis e consagradas.
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     OUTROS VERBETES
Anguera é o fantasma
(visão no idioma tupi)
alma penada na crença
do indígena guarani.

Malacara é o animal
– seja claro ou escurinho –
que leva uma mancha branca 
que vai da testa ao focinho.

Pilcha diz-se do adorno,
joia, objeto de luxo;
do adereço, do dinheiro;
traje típico do gaúcho.

Taio é o mesmo que talho
e significa corte,
é tirar qualquer pedaço;
dar um taio, dar um corte.


Veja aqui a matéria em PDF original:

https://rl.art.br/arquivos/7233793.pdf

Jornal Correio do Povo, Porto Alegre-RS, 17.4.2021.
Landro Oviedo
Enviado por Landro Oviedo em 16/04/2021
Alterado em 17/04/2021


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